| SUMÁRIO
EXECUTIVO
Estabelecendo
os objetivos de conservação
da Biodiversidade
Quatro
objetivos básicos orientaram
a construção desta
Visão de Biodiversidade a
fim de alcançar os resultados
de conservação na
Ecorregião Florestas do Alto
Paraná. Os quatro objetivos
são baseados nos princípios
da biologia da conservação
e incluem:
1.
A conservação de
blocos de floresta natural suficientemente
grandes para apresentar resiliência
a mudanças ambientais rápidas
ou prolongadas.
2. A manutenção
de populações viáveis
de todas as espécies nativas
em seus padrões naturais
de abundância e distribuição,
e com a diversidade genética
necessária para resistir
aos desafios do ambiente;
3. A manutenção
dos processos ecológicos
vitais e fatores de seleção,
tais como regimes de perturbação,
processos hidrológicos,
ciclagem de nutrientes e interações
bióticas, incluindo predação;
4. A representatividade
de todas as comunidades biológicas
e estádios serais existentes
ao longo do gradiente de variação
natural dentro da Paisagem de
Conservação da Biodiversidade.
Construindo
a Visão
A
Visão de Biodiversidade foi
construída a partir de uma
série de análises
complexas que deram origem a uma
Paisagem de Conservação
da Biodiversidade capaz de contemplar
os objetivos de conservação
descritos anteriormente. Durante
os últimos três anos,
o WWF vem conduzindo um processo
participativo transfronteiriço,
envolvendo mais de 30 organizações
locais, que representam vários
setores e disciplinas. Muitas destas
organizações (4) forneceram
informações e dados
importantes para a construção
desta Visão de Biodiversidade
na escala temporal e geográfica
necessária para se conservar
a biodiversidade da Ecorregião
Florestas do Alto Paraná.
Para a execução das
análises, usamos várias
sobreposições de mapas,
representando a distribuição
de diferentes variáveis biológicas
e sócio-econômicas.
Um Sistema de Informação
Geográfica foi a ferramenta
essencial utilizada na condução
das análises e descrição
visual da sobreposição
das informações dos
diferentes mapas. Três análises
separadas, porém interdependentes,
foram cruciais para se alcançar
a Paisagem de Conservação
da Biodiversidade final:
O primeiro passo consistiu na
identificação de cada
unidade de paisagem (5).
Dada a falta de informação
biológica completa ou suficiente
para se definir e mapear todas as
comunidades ecológicas, utilizamos
informações climática,
altimétrica e topográfica
como auxílio ao desenvolvimento
de modelos biológicos. Utilizando
estes três planos de informação,
identificamos 18 unidades de paisagem
separadas.
O segundo passo incluiu a identificação
dos fragmentos de floresta nativa
com o maior potencial para alcançar
os objetivos de conservação.
Esta análise de fragmentação
foi feita com base em um mapa de
cobertura florestal obtido a partir
de imagens de satélite. Classificamos
os fragmentos florestais de acordo
com um Índice de Importância
do Fragmento, desenvolvido para
indicar a contribuição
relativa dos fragmentos florestais
para a conservação
da biodiversidade. O índice
foi baseado em quatro variáveis:
tamanho do fragmento, tamanho do
fragmento após exclusão
de uma zona tampão (6) de
500 m (uma medida indireta dos efeitos
de borda - ver Quadro
4), distância do fragmento
mais próximo e variação
da altitude dentro do fragmento
florestal.
No terceiro passo foi feita uma
análise de riscos
e de oportunidades, cujo
objetivo foi mapear áreas
que apresentam riscos críticos
e oportunidades importantes para
a conservação da biodiversidade.
Esta análise foi realizada
a partir de uma base de dados composta
por informações acerca
do uso da terra. As variáveis
de risco utilizadas em nossas análises
foram: distância de cidades,
presença da agricultura e
de pastagens e densidade da população
rural. As variáveis de oportunidade
que foram utilizadas incluíram:
distância de área de
proteção integral,
a proximidade de um rio (assumindo
que rios nesta ecorregião
constituem corredores biológicos
em potencial) e zonas de conservação
planejada (Capítulo
4). A importância de cada
variável foi definida de
acordo com seus relativos impactos
na conservação da
biodiversidade.
Analisamos o estado atual da cobertura
florestal e a representatividade
das diferentes unidades de paisagem
dentro do sistema de áreas
protegidas utilizando o mapa das
unidades de paisagem em combinação
com o mapa de fragmentação
e o mapa das áreas protegidas.
Isto nos deu uma idéia de
quão bem representada estava
cada unidade de paisagem na paisagem
real e orientou as decisões
de como melhorar a representatividade
das unidades de paisagem na Paisagem
de Conservação da
Biodiversidade final. Combinando
o mapa de fragmentação
com os mapas de riscos e oportunidades,
construímos um mapa com o
potencial de conservação
da biodiversidade que ilustra onde
as áreas com elevado potencial
de conservação da
biodiversidade estão localizadas
na ecorregião. Utilizando
este mapa do potencial de conservação
da biodiversidade como informação
básica, definimos uma Paisagem
de Conservação da
Biodiversidade. Opiniões
de especialistas e a viabilidade
sócio-política de
determinadas decisões também
foram consideradas no delineamento
desta Paisagem de Conservação
da Biodiversidade. Este processo
está resumido na Fig.
32.
O refinamento da Paisagem de Conservação
da Biodiversidade final envolveu
uma série de análises
lógicas e tomadas de decisão,
explicadas aqui de uma maneira simplificada.
Primeiro, utilizando o mapa do potencial
de conservação da
biodiversidade como um guia, identificamos
grandes blocos de floresta nativa
(> 10.000 ha) para constituir
Áreas-núcleo, áreas
florestadas que podem sustentar
o ciclo de vida completo de uma
onça-pintada, utilizada aqui
como espécie guarda-chuva
(7). Em seguida, identificamos Corredores
Principais para conectar as Áreas-núcleo.
Finalmente, áreas menores
com relativamente alto valor de
conservação, circundadas
por Corredores Secundários,
foram incluídas, a fim de
se aumentar a representatividade
das unidades da paisagem e a biodiversidade
associada dentro do plano final
de uma paisagem de conservação
da biodiversidade.
(4) Ver
Agradecimentos.
(5) Uma unidade de paisagem é
uma parcela de terra, de qualquer
tamanho, relativamente uniforme
em determinadas características
(e. g., tipo de solo, vegetação,
uso da terra, etc.) e diferente
das demais porções
de terra. Nesta análise específica,
identificamos diferentes unidades
de paisagem com base em características
abióticas (altitude, topografia,
regime de chuvas e sazonalidade)
identificadas como importantes fatores
da distribuição da
biodiversidade. Ver Análises
das Unidades de Paisagem no Capítulo
4 para maiores detalhes sobre como
identificamos as unidades de paisagem.
(6) O termo ‘zona tampão’
é usado neste documento para
designar uma área de tamanho
arbitrário que circunda a
área em questão: uma
cidade, um fragmento florestal ou
uma ecorregião. Quando estivermos
nos referindo às áreas
de transição que enfraquecem
os efeitos negativos dos impactos
da atividade humana no entorno de
um ecossistema natural, principalmente
uma área de proteção
integral, utilizaremos o termo ‘zona
de amortecimento’ conforme
Lei do SNUC (Sistema Nacional de
Unidades de Conservação
– Lei no 9.985/2000, Decreto
no 4.340/2002).
(7) Espécies guarda-chuva
são aquelas que requerem
uma área muito extensa. Estas
espécies podem ser usadas
como espécies indicadoras
no planejamento e monitoramento
da conservação, sob
a perspectiva de que, se formos
capazes de preservar populações
viáveis destas espécies,
iremos preservar habitat suficiente
para inúmeras outras espécies
com necessidades de área
menor. Para uma revisão crítica
do conceito de espécies guarda-chuva,
ver Noss et al. 1997. |