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CAPÍTULO 2

A ECORREGIÃO FLORESTAS DO ALTO PARANÁ

O Complexo de Ecorregiões da Mata Atlântica

O Complexo de Ecorregiões da Mata Atlântica situado no Brasil, Paraguai e Argentina (daqui em diante referido como Mata Atlântica) é composto por 15 ecorregiões e está entre as florestas tropicais mais ameaçadas do mundo, tendo hoje apenas 7,4% dos seus 1.713.535 km² originais de cobertura florestal. A Mata Atlântica se estende desde as latitudes tropicais dos estados do Ceará e Rio Grande do Norte, na costa Nordeste do Brasil até as latitudes subtropicais com clima estacional do estado do Rio Grande do Sul. Estende-se do Oceano Atlântico para o interior, em direção oeste, passando pelas montanhas costeiras do Brasil até a bacia do Rio Paraná, no Leste do Paraguai e na Província de Misiones, na Argentina (Figura 2).

A biodiversidade da Mata Atlântica não é homogeneamente distribuída uma vez que as diferentes combinações de temperatura, altitude, solos, precipitação e distância do oceano ao longo de sua extensão criaram condições para a ocorrência de grupos únicos de espécies em áreas específicas. As retrações e expansões da floresta no período geologicamente recente do Pleistoceno podem ter contribuído para a criação de novas espécies e formado a distribuição atual das espécies na Mata Atlântica (Prance, 1982 citado por Tabarelli et al., 1999). Para o planejamento de uma estratégia de conservação que garanta a sobrevivência duradoura de uma amostra representativa da complexa biodiversidade da Mata Atlântica, os cientistas e parceiros do WWF dividiram a Mata Atlântica em 15 ecorregiões para análise e identificação dos objetivos referentes à biodiversidade e das estratégias de conservação de longo prazo para atingi-los (Figura 3).

Apesar do altíssimo nível de fragmentação em que se encontra (Figura 4), a Mata Atlântica ainda é um dos ecossistemas mais biodiversos da Terra, contendo cerca de 7% de todas as espécies do mundo (Quintela, 1990, citado por Cullen et al., 2001). Na Reserva Biológica de Una, no sul do estado da Bahia, por exemplo, foi encontrado um dos maiores índices de riqueza de espécies arbóreas do planeta, cerca de 450 espécies (diâmetro à altura do peito - dap > 10 cm) por ha. A Mata Atlântica surpreende não apenas por sua enorme biodiversidade mas também pelo grande número de espécies endêmicas (as que não são encontradas em qualquer outro local da Terra), o que faz desse Complexo de Ecorregiões uma alta prioridade para conservação. Quarenta por cento das 20.000 espécies de plantas da Mata Atlântica (8.000 espécies – 2,7% de todas as plantas do planeta) são endêmicas. Quarenta e dois por cento dos 1.361 vertebrados terrestres da Mata Atlântica (567 espécies – 2,1% de todos os vertebrados terrestres do planeta) também são endêmicos (Myers et al., 2000). Mais de 52% das espécies arbóreas da Mata Atlântica, 74% das suas espécies de bromélias, 80% de suas espécies de primatas e 92% de seus anfíbios são endêmicos (Mittermeier et al., 2001; Quintela, 1990, citado por Valladares-Padua et al., 2002). Muitas dessas espécies estão hoje ameaçadas de extinção. De todas as espécies reconhecidamente ameaçadas de extinção no Brasil, cerca de três quartos vivem na Mata Atlântica (Bright & Mattoon, 2001). Não é surpresa que as oito espécies brasileiras recentemente consideradas extintas sejam todas endêmicas da Mata Atlântica (Mittermeier et al., 1999).

A Mata Atlântica também foi identificada como Área de Risco para a Biodiversidade, inicialmente por Myers (1988, 1990) e posteriormente, pela Conservation International, como uma de suas 25 Áreas de Risco (Mittermeier et al., 1998, Myers et al., 2000). A abordagem de Áreas de Risco enfoca áreas ameaçadas onde ocorrem espécies endêmicas. A BirdLife International mapeou todas as espécies de pássaros com área de ocorrência restrita a menos de 50.000 km² e as Áreas de Pássaros Endêmicos sobrepuseram significativamente grande parte da Mata Atlântica (WWF, 2000).

Além de abrigar algumas das espécies mais raras do mundo, o que resta da Mata Atlântica está diretamente associado à qualidade de vida da população humana. As florestas são vitais para a proteção das bacias hidrográficas, prevenção da erosão do solo e para manter as condições ambientais necessárias à existência de cidades e áreas rurais. Somente no Brasil, a Mata Atlântica é o reservatório de água para cerca de três quartos da população do país. Uma grande parte da eletricidade gerada no Brasil, no Paraguai e na Argentina é produzida nos rios da Mata Atlântica e especialmente na Ecorregião Florestas Alto Paraná, onde se localizam três das maiores hidrelétricas do mundo (Itaipu, Yaciretá e Porto Primavera).

A longa história da ocupação humana na região está testemunhada pelas ferramentas de pedra com idade aproximada de 11.000 anos encontradas na Mata Atlântica. Quando os espanhóis e portugueses chegaram na região no início dos anos 1500 encontraram grupos de pessoas, principalmente os Guarani, com uma economia baseada na pequena produção, na caça e na coleta. Esses povos nativos, vivendo em baixas a médias densidades, causaram, quando muito, impactos moderados no ambiente. Entretanto, com a chegada dos europeus no século XVI, uma dramática transformação do ambiente começou a ocorrer na Mata Atlântica (Dean, 1995; Jacobsen, no prelo).

Como foi a primeira parte do Brasil a ser colonizada pelos portugueses no início do século XVI, a Mata Atlântica tornou-se o centro populacional do país. Nos séculos XVII e XVIII, a cana-de-açúcar, a criação de gado e o desmatamento descontrolado para a exploração da madeira de algumas poucas espécies arbóreas foram as principais atividades econômicas que começaram a transformar a Mata Atlântica em pastos e monoculturas. No século XIX, as plantações de café tornaram-se cada vez mais comuns no centro e no sul da Mata Atlântica. No século XX, as atividades industriais, principalmente a produção de aço, iniciaram o consumo crescente de madeira como combustível (Dean, 1995; Bright & Mattoon, 2001). Plantações de eucaliptos e de outras monoculturas florestais exóticas (para construção, papel, lenha, carvão e outros produtos madeireiros) substituíram enormes extensões de Mata Atlântica. Mais recentemente e especialmente mais ao sul, a soja, o trigo, o milho e outras monoculturas anuais transformaram definitivamente o que era uma vasta floresta contínua numa paisagem altamente fragmentada onde pequenas manchas de floresta sobrevivem numa matriz de monoculturas, pastos, estradas e cidades.

Conseqüências semelhantes de destruição da floresta ocorreram em todos os estados brasileiros cobertos pela Mata Atlântica, apesar das diferenças nas atividades econômicas principais e do ritmo de destruição desta floresta. No estado de São Paulo, por exemplo, os grandes proprietários começaram a explorar a floresta muito cedo na história do Brasil e a maior parte das terras está nas mãos de poucas pessoas (Cullen et al., 2001). No estado de Santa Catarina, onde a destruição da floresta começou praticamente no século XX, a maior parte dos proprietários possui pequenas parcelas de terra (Hodge et al., 1997). Hoje em dia, três quartos da população de 170 milhões de brasileiros vivem na Mata Atlântica e 80% do PIB brasileiro, a oitava maior economia do mundo, é produzido nesta região.

Em compensação, o isolamento dos centros da população humana nas porções argentina e paraguaia da ecorregião permitiu a preservação do maior pedaço de Mata Atlântica. A ocupação da ecorregião na Argentina e no Paraguai se iniciou mais tarde e até o começo do século XX a maior parte de Mata Atlântica desses países ainda estava coberta por floresta nativa. Somente nas últimas décadas é que grandes extensões de Mata Atlântica foram desmatadas no Paraguai para o desenvolvimento das plantações de soja em larga escala e da pequena agricultura. Na Argentina, a colonização e o desenvolvimento do país iniciaram-se nos pampas, em um dos solos mais ricos do mundo, longe das florestas. A Mata Atlântica da Província de Misiones, na Argentina, foi explorada relativamente tarde na história do país, principalmente para madeira e erva mate (uma planta endêmica utilizada para chá).

A destruição do habitat e a fragmentação da Mata Atlântica, aliados ao alto grau de endemismo de espécies, tornam ações de conservação particularmente urgentes.

 
Foto: WWF-Canon/Michel Gunther
Sumário Executivo
 
Capítulo 1 – Conservação Ecorregional e a Visão de Biodiversidade
 
Capítulo 2 – A Ecorregião Florestas do Alto Paraná
 
Capítulo 3 – Objetivos para Alcançar os Resultados de Conservação da Biodiversidade
 
Capítulo 4 – Planejando uma Paisagem de Conservação da Biodiversidade – Metodologia
 
Capítulo 5 – Resultados:
A Paisagem de Conservação da Biodiversidade
 
Capítulo 6 – Estabelecendo prioridades e metas para ações de conservação
 
Referências Bibliográficas
 
Agradecimentos
 
Índice de Figuras de Tabelas