Foto: Liviam Cordeiro Beduschi - WWF-Brasil Foto: José & Adriana Calo Foto: WWF-Canon/Michel Gunther Foto: WWF-Canon/Michel Gunther Foto: WWF-Canon/Michel Gunther
 

CAPÍTULO 4

PLANEJANDO UMA PAISAGEM DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE – METODOLOGIA

O objetivo das análises realizadas nesta Visão de Biodiversidade é o de desenvolver uma Paisagem de Conservação da Biodiversidade que, se implementada, contribuirá para o alcance dos objetivos de conservação da biodiversidade descritos anteriormente: manutenção de blocos grandes e resilientes de floresta, manutenção de populações viáveis de espécies guarda-chuva, manutenção dos processos ecológicos e representatividade das comunidades ecológicas nativas.

Durante os últimos três anos, o WWF vem conduzindo um processo de participação transfronteiriça, envolvendo organizações locais que representam vários setores e disciplinas, para desenvolver esta Visão nas escalas temporal e geográfica necessárias para conservar a biodiversidade da Ecorregião Florestas do Alto Paraná. Um grupo de trinta e seis parceiros e a equipe do WWF reuniu-se em Foz do Iguaçu, Brasil, em abril de 2000. Em preparação para a oficina, várias organizações parceiras no Paraguai e Argentina foram contratadas para coletar e compilar os melhores dados disponíveis sobre a distribuição da fauna e da flora e aspectos geomorfológicos e sócio-econômicos que fossem compatíveis com as informações já coletadas no Brasil, no encontro Nacional do PROBIO6 sobre a Mata Atlântica, realizado em Atibaia, Brasil, em Agosto de 1999. Muitas organizações forneceram informações e dados cruciais para produzir esta Visão de Biodiversidade (7), que continuará sendo aperfeiçoada à medida que informações adicionais se tornarem disponíveis.

Esta Visão de Biodiversidade é um produto de várias análises científicas utilizando ArcView, um Sistema de Informação Geográfica (SIG). Foi utilizado o módulo de Analista Espacial do ArcView, com um “grid” com células de 500 x 500m (1/4 km²). A informação básica para a análise é expressa em mapas que representam a distribuição espacial de diversas variáveis biológicas e sócio-econômicas. Vários tipos de informação foram sobrepostos ou combinados, obtendo-se assim novos mapas, gerando mais informações integradas. Na execução das análises foi utilizada uma zona tampão de 25 km na borda da Ecorregião Florestas do Alto Paraná com a Ecorregião Florestas de Araucárias. Inicialmente, foram conduzidas três análises separadas, porém interdependentes, descritas abaixo.

Análise de Unidades de Paisagem. Inicialmente foram discriminadas as unidades de paisagem dentro da área em análise. Uma unidade de paisagem é uma área que contém um grupo de espécies, comunidades ou processos ecológicos que a difere de outras unidades de paisagem. Cada unidade de paisagem é, freqüentemente, fruto de uma combinação característica entre clima, tipo de solo e grupos de espécies. Para se obter uma representatividade de toda a riqueza de espécies e comunidades naturais da ecorregião, é necessário preservar porções representativas de cada unidade de paisagem.

Uma vez que não se dispunha de dados biológicos suficientes para definir e mapear unidades de paisagem, foram utilizadas informações climáticas e topográficas como substitutas ao desenvolvimento de um modelo biológico. A hipótese por trás desta simplificação é que unidades geográficas com diferentes condições climáticas e topografia estarão correlacionadas com comunidades ecológicas distintas. Esta técnica para se definir a unidade de paisagem é similar à utilizada em outras análises de Visão de Biodiversidade8, quando os dados biológicos não estavam disponíveis. Para discriminar as unidades de paisagem, utilizamos três planos de informação. O primeiro foi o número de meses secos por ano. Foram estabelecidas três categorias: áreas sem estação seca, áreas com um a dois meses secos e áreas com três ou mais meses secos (Figura 12). O segundo plano de informação utilizado foi a altitude. Dividimos a ecorregião em duas categorias: acima ou abaixo de 500 m do nível do mar (Figura 13). O terceiro plano de informação foi constituído por um mapa de dados topográficos descrevendo o grau de inclinação do terreno. Foram definidas, neste caso, três categorias: plano, declividade moderada e declividade abrupta, representando áreas com diferentes gradientes de inclinação e variação topográfica (Figura 14). A combinação destes três planos de informação originou um total de 18 unidades de paisagem (Figura 15). Será importante testar se estas unidades de paisagem representam realmente entidades ecológicas distintas.

Análise de Fragmentação. O objetivo desta análise foi o de discriminar aqueles fragmentos de floresta nativa com elevado potencial para atingir os objetivos de conservação. A informação básica para esta análise foi dada por um mapa de cobertura florestal obtido a partir de imagens de satélite (Figura 16). Este mapa de cobertura florestal foi criado combinando-se o mapa de cobertura florestal da SOS Mata Atlântica (Fundação SOS Mata Atlântica, 1998), para a porção brasileira da ecorregião (baseado em imagens de satélite de 1990-1995); o mapa produzido pela Fundação Moisés Bertoni, Administração de Ordenamento Ambiental (DOA) e a Carreira de Engenharia Florestal para a porção paraguaia da ecorregião (baseado em imagens de satélites de 1997); e o mapa produzido pela Fundação Vida Silvestre Argentina (baseado em imagens de satélite fornecidas pelo Ministério de Ecologia e Recursos Naturais Renováveis de Misiones, em 1999).

Os fragmentos florestais foram relacionados de acordo com sua importância para a conservação. A importância para a conservação de um fragmento florestal foi avaliada utilizando-se cinco variáveis:

 


1) Tamanho do fragmento – Quanto maior o fragmento, maior sua importância para a conservação da biodiversidade (Figura 17).

2) Núcleo do fragmento – A área do fragmento de floresta após exclusão da zona tampão de 500 m, distância na qual os efeitos de borda são comprovadamente significativos (ver Capítulo 3). Serve como uma medida indireta dos efeitos do formato e da borda do fragmento (Figura 18).

3) Vizinhança mais próxima – A distância do fragmento de um outro fragmento de floresta. Esta é uma medida de conectividade/isolamento dos fragmentos florestais.

4) Variação da altitude dentro do fragmento florestal – Uma medida indireta da variação nas condições topográficas, de solo e microclimática dentro do fragmento de floresta.

5) Localização de um fragmento dentro de uma bacia hidrográfica – Medidas da contribuição de um fragmento florestal na conservação da água. Para este objetivo, elaboramos um índice de localização na microbacia.


(6) PROBIO é um projeto do Ministério do Meio Ambiente do Brasil para a Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade. O PROBIO identificou áreas e ações prioritárias para a conservação da Mata Atlântica (Conservation International do Brasil, 2000).

(7) Ver Agradecimentos.

(8) Como, por exemplo, nas Visões da Biodiversidade das Ecorregiões Sudoeste Amazônico, Norte dos Andes e Spiny Thicket de Madagascar.



 
Foto: Lou Ann Dietz/WWF
Sumário Executivo
 
Capítulo 1 – Conservação Ecorregional e a Visão de Biodiversidade
 
Capítulo 2 – A Ecorregião Florestas do Alto Paraná
 
Capítulo 3 – Objetivos para Alcançar os Resultados de Conservação da Biodiversidade
 
Capítulo 4 – Planejando uma Paisagem de Conservação da Biodiversidade – Metodologia
 
Capítulo 5 – Resultados:
A Paisagem de Conservação da Biodiversidade
 
Capítulo 6 – Estabelecendo prioridades e metas para ações de conservação
 
Referências Bibliográficas
 
Agradecimentos
 
Índice de Figuras de Tabelas