|
CAPÍTULO
4
PLANEJANDO
UMA PAISAGEM DE CONSERVAÇÃO
DA BIODIVERSIDADE – METODOLOGIA
O
objetivo das análises realizadas
nesta Visão de Biodiversidade
é o de desenvolver uma Paisagem
de Conservação da
Biodiversidade que, se implementada,
contribuirá para o alcance
dos objetivos de conservação
da biodiversidade descritos anteriormente:
manutenção de blocos
grandes e resilientes de floresta,
manutenção de populações
viáveis de espécies
guarda-chuva, manutenção
dos processos ecológicos
e representatividade das comunidades
ecológicas nativas.
Durante os últimos três
anos, o WWF vem conduzindo um processo
de participação transfronteiriça,
envolvendo organizações
locais que representam vários
setores e disciplinas, para desenvolver
esta Visão nas escalas temporal
e geográfica necessárias
para conservar a biodiversidade
da Ecorregião Florestas do
Alto Paraná. Um grupo de
trinta e seis parceiros e a equipe
do WWF reuniu-se em Foz do Iguaçu,
Brasil, em abril de 2000. Em preparação
para a oficina, várias organizações
parceiras no Paraguai e Argentina
foram contratadas para coletar e
compilar os melhores dados disponíveis
sobre a distribuição
da fauna e da flora e aspectos geomorfológicos
e sócio-econômicos
que fossem compatíveis com
as informações já
coletadas no Brasil, no encontro
Nacional do PROBIO6 sobre a Mata
Atlântica, realizado em Atibaia,
Brasil, em Agosto de 1999. Muitas
organizações forneceram
informações e dados
cruciais para produzir esta Visão
de Biodiversidade (7), que continuará
sendo aperfeiçoada à
medida que informações
adicionais se tornarem disponíveis.
Esta Visão de Biodiversidade
é um produto de várias
análises científicas
utilizando ArcView, um Sistema de
Informação Geográfica
(SIG). Foi utilizado o módulo
de Analista Espacial do ArcView,
com um “grid” com células
de 500 x 500m (1/4 km²). A
informação básica
para a análise é expressa
em mapas que representam a distribuição
espacial de diversas variáveis
biológicas e sócio-econômicas.
Vários tipos de informação
foram sobrepostos ou combinados,
obtendo-se assim novos mapas, gerando
mais informações integradas.
Na execução das análises
foi utilizada uma zona tampão
de 25 km na borda da Ecorregião
Florestas do Alto Paraná
com a Ecorregião Florestas
de Araucárias. Inicialmente,
foram conduzidas três análises
separadas, porém interdependentes,
descritas abaixo.
Análise de Unidades
de Paisagem. Inicialmente
foram discriminadas as unidades
de paisagem dentro da área
em análise. Uma unidade de
paisagem é uma área
que contém um grupo de espécies,
comunidades ou processos ecológicos
que a difere de outras unidades
de paisagem. Cada unidade de paisagem
é, freqüentemente, fruto
de uma combinação
característica entre clima,
tipo de solo e grupos de espécies.
Para se obter uma representatividade
de toda a riqueza de espécies
e comunidades naturais da ecorregião,
é necessário preservar
porções representativas
de cada unidade de paisagem.
Uma vez que não se dispunha
de dados biológicos suficientes
para definir e mapear unidades de
paisagem, foram utilizadas informações
climáticas e topográficas
como substitutas ao desenvolvimento
de um modelo biológico. A
hipótese por trás
desta simplificação
é que unidades geográficas
com diferentes condições
climáticas e topografia estarão
correlacionadas com comunidades
ecológicas distintas. Esta
técnica para se definir a
unidade de paisagem é similar
à utilizada em outras análises
de Visão de Biodiversidade8,
quando os dados biológicos
não estavam disponíveis.
Para discriminar as unidades de
paisagem, utilizamos três
planos de informação.
O primeiro foi o número de
meses secos por ano. Foram estabelecidas
três categorias: áreas
sem estação seca,
áreas com um a dois meses
secos e áreas com três
ou mais meses secos (Figura
12). O segundo plano de informação
utilizado foi a altitude. Dividimos
a ecorregião em duas categorias:
acima ou abaixo de 500 m do nível
do mar (Figura
13). O terceiro plano de informação
foi constituído por um mapa
de dados topográficos descrevendo
o grau de inclinação
do terreno. Foram definidas, neste
caso, três categorias: plano,
declividade moderada e declividade
abrupta, representando áreas
com diferentes gradientes de inclinação
e variação topográfica
(Figura
14). A combinação
destes três planos de informação
originou um total de 18 unidades
de paisagem (Figura
15). Será importante
testar se estas unidades de paisagem
representam realmente entidades
ecológicas distintas.
Análise de Fragmentação.
O objetivo desta análise
foi o de discriminar aqueles fragmentos
de floresta nativa com elevado potencial
para atingir os objetivos de conservação.
A informação básica
para esta análise foi dada
por um mapa de cobertura florestal
obtido a partir de imagens de satélite
(Figura
16). Este mapa de cobertura
florestal foi criado combinando-se
o mapa de cobertura florestal da
SOS Mata Atlântica (Fundação
SOS Mata Atlântica, 1998),
para a porção brasileira
da ecorregião (baseado em
imagens de satélite de 1990-1995);
o mapa produzido pela Fundação
Moisés Bertoni, Administração
de Ordenamento Ambiental (DOA) e
a Carreira de Engenharia Florestal
para a porção paraguaia
da ecorregião (baseado em
imagens de satélites de 1997);
e o mapa produzido pela Fundação
Vida Silvestre Argentina (baseado
em imagens de satélite fornecidas
pelo Ministério de Ecologia
e Recursos Naturais Renováveis
de Misiones, em 1999).
Os fragmentos florestais foram relacionados
de acordo com sua importância
para a conservação.
A importância para a conservação
de um fragmento florestal foi avaliada
utilizando-se cinco variáveis:
1) Tamanho
do fragmento –
Quanto maior o fragmento, maior
sua importância para a conservação
da biodiversidade (Figura
17).
2) Núcleo
do fragmento –
A área do fragmento de
floresta após exclusão
da zona tampão de 500 m,
distância na qual os efeitos
de borda são comprovadamente
significativos (ver Capítulo
3). Serve como uma medida
indireta dos efeitos do formato
e da borda do fragmento (Figura
18).
3) Vizinhança
mais próxima –
A distância do fragmento
de um outro fragmento de floresta.
Esta é uma medida de conectividade/isolamento
dos fragmentos florestais.
4) Variação
da altitude dentro do fragmento
florestal – Uma
medida indireta da variação
nas condições topográficas,
de solo e microclimática
dentro do fragmento de floresta.
5) Localização
de um fragmento dentro de uma
bacia hidrográfica –
Medidas da contribuição
de um fragmento florestal na conservação
da água. Para este objetivo,
elaboramos um índice de
localização na microbacia.
(6)
PROBIO é um projeto do Ministério
do Meio Ambiente do Brasil para
a Conservação e Uso
Sustentável da Biodiversidade.
O PROBIO identificou áreas
e ações prioritárias
para a conservação
da Mata Atlântica (Conservation
International do Brasil, 2000).
(7) Ver Agradecimentos.
(8) Como, por exemplo, nas Visões
da Biodiversidade das Ecorregiões
Sudoeste Amazônico, Norte
dos Andes e Spiny Thicket de Madagascar.
|