CAPÍTULO
3
OBJETIVOS
PARA ALACANÇAR OS
RESULTADOS
DE CONSERVAÇÃO
DA BIODIVERSIDADE
QUADRO
4 (continuação)
Algumas
espécies requerem grandes
habitats e pequenos fragmentos
não satisfazem suas
necessidades. Chiarello (2000)
estimou que somente fragmentos
florestais superiores a 20.000
ha podem sustentar populações
viáveis de médios
a grandes mamíferos
na Mata Atlântica. Uma
revisão de literatura
a respeito de habitat requerido
por pequenos grupos de pássaros
e mamíferos da Ecorregião
Florestas do Alto Paraná
mostra que, mesmo para espécies
que requerem habitat relativamente
pequeno (e.g., esquilos, tatus,
cutias e macacos), um fragmento
florestal com menos de 1.000
ha não é grande
o suficiente para manter uma
população viável.
Para espécies que requerem
grande habitat (gaviões
reais, onças, antas),
é necessário
manter fragmentos florestais
com ao menos algumas centenas
de milhares de hectares (Tabela
2).
O desaparecimento de espécies
de vertebrados dos fragmentos
florestais tem um efeito em
cascata no ecossistema, conseqüentemente
afetando outras guildas de
animais e até mesmo
processos ecológicos,
como a decomposição
de excremento (Klein, 1989),
polinização
e dispersão de sementes.
Em fragmentos florestais,
a ausência de predadores
pode resultar em aumento dos
herbívoros, os quais
podem, por sua vez, ter um
efeito drástico na
estrutura da floresta e na
diversidade de espécies
(Terborgh et al. 1999, 2001).
A falta de predadores de topo
de cadeia pode favorecer um
aumento do número de
predadores de médio
porte, os quais podem resultar
em maiores taxas de predação
de pássaros e pequenos
mamíferos (Davies et
al. 2001, Terborgh et al.
1999). Este efeito pode explicar
o aumento acentuado na predação
do altamente ameaçado
mico-leão-dourado (Leontopithecus
rosalia), endêmico da
região de baixada costeira
do estado do Rio de Janeiro
na Mata Atlântica cuja
vegetação nativa
se encontra altamente fragmentada
(J. Dietz, comunicação
pessoal).
Nossa capacidade em preservar
espécies guarda-chuva,
aquelas que requerem grandes
habitats, será então
um bom indicador para a nossa
capacidade de preservar a
biodiversidade intacta e os
processos ecológicos.
A fim de se manter comunidades
e processos ecológicos
intactos, é essencial
preservar os maiores fragmentos
florestais que ainda contêm
indivíduos de espécies
guarda-chuva, como onças
e antas. Na Ecorregião
Florestas do Alto Paraná,
os fragmentos florestais isolados
de cerca de 2.000 ha já
perderam as onças e
aqueles que estão sob
forte pressão da caça
também perderam muitos
outros grandes mamíferos
(Cullen et al. 2000). Entretanto,
os fragmentos florestais com
muitas dezenas de milhares
de hectares ainda têm
espécies guarda-chuva
e muito de sua biodiversidade.
Alguns exemplos são
o Parque Estadual do Morro
do Diabo, em São Paulo,
Brasil, com 35.000 ha (Cullen
et al. 2000, Valladares Padua
et al. 2002) e o Parque Nacional
Mbaracayú, no nordeste
do Paraguai, com 59.000 ha
(Zuercher et al. 2001, D.
Ciarmiello, comunicação
pessoal).
Com base nas necessidades
territoriais de cada espécie
nesta ecorregião (tabela
2; citado acima), é
razoável considerarmos
10.000 ha de uma floresta
bem protegida como sendo a
área mínima
para se considerar o remanescente
como um grande fragmento.
A extensão de 10.000
ha também corresponde
à área mínima
necessária para um
macho de onça pintada
(P. Crawshaw 1994 e comunicação
pessoal). Um bloco com cerca
de 10.000 ha de floresta bem
protegida pode conter um macho
adulto e 1-2 fêmeas
adultas de onça-pintada,
constituindo assim a área
requerida por uma unidade
reprodutiva mínima
desta espécie. Por
estas razões, escolhemos
a onça-pintada como
espécie guarda-chuva
para estas análises
e iremos utilizar esta espécie
para monitorar a eficácia
de nossa Paisagem de Conservação
da Biodiversidade no futuro.
Isolamento. Evidências
consideráveis sugerem
que, uma vez perdidas suas
espécies, áreas
isoladas são difíceis
de serem recolonizadas. Para
muitas espécies florestais
torna-se difícil ou
impossível transpor
áreas de pastagem ou
agricultura (principalmente
monoculturas), que freqüentemente
separam as ilhas florestais.
A falta de fluxo gênico
entre populações
pequenas ou isoladas contribui
para ampliar os efeitos deletérios
da endogamia e aumenta a probabilidade
de extinção
(Dobson et al. 1999).
A manutenção
dos corredores biológicos,
conectando fragmentos florestais
e permitindo a movimentação
de indivíduos e o conseqüente
fluxo gênico, pode reduzir
os efeitos deletérios
do isolamento genético
(Mech & Hallett 2001).
Fragmentos florestais não
são ilhas oceânicas
que têm limites precisos
com um ecossistema circunvizinho
completamente distinto, mas
são circundados por
outros ecossistemas terrestres.
A matriz na qual os fragmentos
florestais estão localizados
pode facilitar ou dificultar
a conectividade entre manchas
florestais. Quanto maior a
semelhança entre a
matriz e a floresta original,
maiores serão as oportunidades
das espécies nativas
se dispersarem para outros
fragmentos florestais. A matriz
pode ainda gerar habitat alternativo
para espécies generalistas
se as diferenças estruturais
entre a matriz e a floresta
original forem pequenas (Gascon
et al. 1999, Davies et al.
2001). Por exemplo, cientistas
estudando besouros do esterco
de florestas tropicais úmidas
que vivem em fragmentos da
Amazônia próxima
a Manaus encontraram estas
espécies em uma área
vizinha desmatada –
área esta que continha
uma extensa vegetação
secundária (Klein,
1989). Entretanto, a fim de
se permitir que todas as espécies
nativas dispersem entre os
fragmentos florestais, estas
manchas devem estar conectadas
através de corredores
biológicos de floresta
nativa.
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