SUMÁRIO EXECUTIVO

Conservação Ecorregional

Nos últimos anos, organizações que atuam em prol da conservação da biodiversidade vêm ampliando a escala territorial na qual promovem o planejamento e a implantação de suas ações. O WWF adotou esta abordagem, passando a trabalhar na escala de ecorregião - unidade relativamente grande de terra ou água contendo um conjunto distinto de comunidades naturais que compartilham grande parte de suas espécies, dinâmicas e condições ambientais. Visto que a maior parte dos processos ecológicos e evolutivos que sustentam a biodiversidade ocorre nesta escala, a ecorregião tem se revelado a unidade mais adequada para o planejamento e implantação de ações de conservação.
Um dos elementos-chave utilizado para implementar a conservação de uma ecorregião é a Visão de Biodiversidade. A Visão de Biodiversidade é uma ferramenta para o planejamento, apresentada geralmente na forma de um documento como este, que visa orientar as ações de conservação da biodiversidade na ecorregião. A Visão de Biodiversidade estabelece metas de conservação da biodiversidade baseadas em princípios amplamente aceitos da biologia da conservação, e identifica áreas críticas a serem conservadas, administradas ou recuperadas para que tais metas sejam alcançadas. Essas áreas são identificadas por meio de procedimentos científicos que se fundamentam nos melhores dados de biodiversidade disponíveis, assim como em informações sócio-econômicas. Por meio deste procedimento, é elaborada a Paisagem de Conservação da Biodiversidade, representada num mapa que mostra como a ecorregião se apresentará em 50 a 100 anos se obtivermos êxito na implementação das ações de conservação, manejo e recuperação recomendadas. Essa Paisagem de Conservação da Biodiversidade é uma peça central da Visão de Biodiversidade e a sua representação em um mapa ajuda a focar as atividades de conservação nas áreas da ecorregião que renderão os melhores resultados na conservação da biodiversidade.

Florestas do Alto Paraná - uma ecorregião criticamente ameaçada

A partir de um trabalho de priorização em escala global feita com base em análises comparativas de dados de biodiversidade, o WWF identificou as ecorregiões críticas, que representam a maior parte da diversidade de habitats terrestres, marinhos e de água doce da Terra. Este trabalho resultou no documento chamado “Global 200”. A Mata Atlântica, uma das ecorregiões identificadas nesse processo, constitui, na verdade, um complexo de 15 ecorregiões terrestres (1) ao longo da costa Atlântica do Brasil, estendendo-se para o oeste até porções leste do Paraguai e nordeste da Argentina. A Mata Atlântica está entre as florestas mais ameaçadas da Terra. Restaram apenas 7,4% de sua cobertura original sob a forma de uma paisagem altamente fragmentada. Ainda assim, a Mata Atlântica é reconhecida como uma das florestas mais biodiversas do mundo. A Ecorregião Ecorregião Florestas do Alto Paraná está localizada na porção sudoeste da Mata Atlântica e constitui o foco desta Visão de Biodiversidade.

Dentre as 15 ecorregiões do Complexo de Ecorregiões da Mata Atlântica, a Ecorregião Florestas do Alto Paraná é a que possuía maior área original (2) (471.204 km²), estendendo-se da vertente oeste da Serra do Mar, no Brasil, até o leste do Paraguai e a Província de Misiones na Argentina. Toda esta área era originalmente coberta por uma contínua floresta estacional semi decidual, com alta diversidade de espécies de plantas, que formavam diferentes comunidades florestais (3). Esta ecorregião possui hoje os maiores blocos de floresta remanescente. Abriga ainda o grupo original de grandes vertebrados, inclusive predadores do topo de cadeia, tais como gavião real, gavião de penacho, onça-pintada, suçuarana e jaguatirica, além de grandes herbívoros, como antas, duas espécies de veado e duas espécies de queixada. Estes blocos representam uma importante oportunidade de conservação, mas apresentam o particular desafio de transpor a fronteira de três países com diferentes culturas e diferentes idiomas, uma complexa diversidade sócio-econômica e cultural e que experimentaram recentes crises econômicas e sociais. Mais de 25 milhões de pessoas vivem nesta ecorregião, sendo 18,6 milhões nas áreas urbanas e 6,4 milhões nas áreas rurais. A tomada de decisões que influenciam esta ecorregião, pelo governo, é igualmente complexa, além de dispersa, com políticas de importância para a Mata Atlântica sendo desenvolvidas e implantadas por três governos federais, 18 governos de províncias/estados/departamentos e 1.572 governos municipais.

A maior ameaça para a biodiversidade na Ecorregião Florestas do Alto Paraná é o extremo grau de fragmentação e degradação da floresta, cuja causa principal é a expansão da agricultura, tanto em grande como em pequena escala. Outras causas incluem ocupação, a construção de infraestrutura (barragens, estradas, etc.), a caça ilegal de animais selvagens e a exploração insustentável da floresta nativa. Apesar do alto grau de fragmentação da floresta, ainda há boas oportunidades para a conservação dos grandes fragmentos de floresta remanescentes na ecorregião. Ao proteger estas grandes áreas, seremos capazes de conservar grande parte dos processos ecológicos que sustentam a vida.


(1) Assim, a Mata Atlântica não é propriamente uma ecorregião, mas um grupo de 15 ecorregiões. Estas 15 ecorregiões eram originalmente cobertas por um continuum de florestas tropicais e subtropicais que compartilhavam a mesma história biogeográfica, além de inúmeras espécies e comunidades. Por esta razão, o WWF agrupou-as em uma única ecorregião no documento “Global 200”.

(2) Original (ou originalmente) refere-se ao tempo enquanto a área era, em sua maior parte, coberta por vegetação florestal primária. Este tempo corresponde, aproximadamente, ao fim do século XV e início do XVI, coincidindo com a chegada dos primeiros imigrantes europeus e o início do rápido processo de transformação das florestas em terras agrícolas. Entretanto, há evidências de que, mesmo anteriormente a este período, os povos nativos possivelmente impactaram a ecorregião em pequeno ou médio grau.

(3) A composição das comunidades de plantas da Ecorregião Florestas do Alto Paraná é influenciada pelos diversos tipos de solo e pela espécie arbórea dominante. Na Mata Atlântica do Alto Paraná, alguns exemplos de comunidades típicas são: florestas de palmito (Euterpe edulis) e peroba rosa (Aspidosperma polyneuron), florestas de bambu (quatro espécies de bambu são comuns na ecorregião e são espécies dominantes em algumas áreas), florestas de lauráceas (muitas espécies de árvores do gênero Nectandra e Ocotea são comuns neste tipo de floresta). Entretanto, não existe nenhum mapa de vegetação detalhado para toda a ecorregião e não há unanimidade na nomenclatura usada para as diferentes comunidades florestais.


 
 
Foto: WWF-Canon/Michel Gunther
Sumário Executivo
 
Capítulo 1 – Conservação Ecorregional e a Visão de Biodiversidade
 
Capítulo 2 – A Ecorregião Florestas do Alto Paraná
 
Capítulo 3 – Objetivos para Alcançar os Resultados de Conservação da Biodiversidade
 
Capítulo 4 – Planejando uma Paisagem de Conservação da Biodiversidade – Metodologia
 
Capítulo 5 – Resultados:
A Paisagem de Conservação da Biodiversidade
 
Capítulo 6 – Estabelecendo prioridades e metas para ações de conservação
 
Referências Bibliográficas
 
Agradecimentos
 
Índice de Figuras de Tabelas
 
Foto: Liviam Cordeiro Beduschi - WWF-Brasil Foto: José & Adriana Calo Foto: WWF-Canon/Michel Gunther Foto: WWF-Canon/Michel Gunther Foto: WWF-Canon/Michel Gunther