CAPÍTULO
3
OBJETIVOS
PARA ALACANÇAR OS RESULTADOS
DE CONSERVAÇÃO DA
BIODIVERSIDADE
Quadro
4 (...)
Embora
nossos esforços estejam concentrados
na preservação de
grandes blocos de floresta relativamente
intacta e nas conexões destes
a outros fragmentos florestais por
meio de corredores de floresta nativa,
não descartamos o valor da
conservação dos pequenos
fragmentos. Há muitas maneiras
pelas quais pequenos fragmentos
podem contribuir para a conservação.
Primeiro, pequenos fragmentos florestais
podem cumprir uma função
importante na proteção
de microbacias hidrográficas
e dos solos. Segundo, eles podem
servir como trampolins ecológicos,
ilhas que indicam o caminho para
a criação de futuros
corredores biológicos.
Terceiro, eles podem funcionar como
refúgio de inverno para alguns
pássaros migratórios
locais e de locais distantes. Quarto,
eles podem fornecer as sementes
que facilitam os programas de recuperação
florestal local (Cullen et al. 2001,
Valladares-Padua et al. 2002). Quinto,
alguns dos pequenos fragmentos podem
ainda conter espécies não
encontradas nas demais ecorregiões.
Finalmente, eles podem assumir importantes
funções culturais,
estéticas e educacionais.
O maior desafio para alcançar
os objetivos permanentes de conservação
da biodiversidade na Ecorregião
Florestas do Alto Paraná
é, então, manter os
grandes blocos de floresta relativamente
intactos e conectá-los a
outros blocos através de
um sistema de corredores. Pequenos
fragmentos podem servir como trampolins
ecológicos, que além
de facilitarem o fluxo gênico
de várias espécies
podem também ajudar no planejamento
e estabelecimento dos corredores
biológicos. Com a criação
de novas áreas protegidas,
o manejo eficiente daquelas já
existentes e o estabelecimento de
corredores biológicos, juntamente
com atividades econômicas
ambientalmente compatíveis,
acreditamos que ainda seja possível
manter os principais processos ecológicos
que sustentam a biodiversidade na
ecorregião. O planejamento
de uma paisagem que irá permitir
que alcancemos estes objetivos de
conservação requer
uma minuciosa análise da
fragmentação, juntamente
com uma análise de riscos
e oportunidades. Nossa previsão
para a Ecorregião Florestas
do Alto Paraná é que,
dentro dos próximos 50 anos,
a Paisagem de Conservação
da Biodiversidade que planejamos
se tornará realidade. O próximo
capítulo descreve o processo
pelo qual planejamos esta Paisagem
de Conservação da
Biodiversidade.
O quadro 4 discute alguns dos importantes
aspectos da fragmentação,
que são particularmente relevantes
nesta ecorregião.
QUADRO
4
Os Problemas da Fragmentação:
efeitos de borda,
efeitos do tamanho e isolamento
Efeitos
de borda. Uma das conseqüências
mais deletérias da
fragmentação
extrema das florestas é
que organismos que sobrevivem
em fragmentos de floresta
estão expostos às
condições bastante
adversas do ecossistema antropizado
que circunda a floresta. Estas
condições são
mais pronunciadas próximo
à borda do fragmento,
na interface entre a floresta
e o novo ecossistema que a
circunda. A intensidade dos
efeitos de borda é
freqüentemente medida
como sendo a distância
na qual o efeito é
ainda notado dentro do fragmento
florestal (Murcia 1995, Laurence
et al. 2000). Os efeitos de
borda podem ser classificados
em três tipos básicos:
efeitos abióticos (e.g.,
temperatura, radiação
solar), efeitos bióticos
diretos (e.g., mudanças
na composição
de espécies ou introdução
de espécies exóticas)
e efeitos bióticos
indiretos (e.g., mudanças
nas interações
entre espécies próximo
à borda, como aumento
da taxa de predação)
(Murcia 1995). As taxas anuais
de mortalidade de árvores,
dano às árvores
e formação de
clareira aumentam nitidamente
até 100 m da borda
da floresta e resultam em
aumento da perda de biomassa
viva e aumento da emissão
de dióxido de carbono
(Bierregaard et al. 1992,
Laurence et al. 1998, Laurence
et al. 2000). Alguns efeitos
de borda podem ser notados
até várias centenas
de metros para o interior
do fragmento de floresta,
especialmente os efeitos bióticos,
como a predação
de ninhos e a invasão
por espécies exóticas
ou adaptadas à perturbação.
(Murcia 1995, Laurence et
al. 2000, Bright & Mattoon
2001). Como conseqüência
destes efeitos de borda, as
comunidades florestais são
drasticamente alteradas próximo
à borda. Por exemplo,
espécies de árvore
de interior de mata e de crescimento
lento são substituídas
por árvores pioneiras
e secundárias (Benitez-Malvido
1998, Tabarelli et al. 1999).
Além dos três
efeitos de borda descritos
acima, adicionamos um quarto
e muito importante efeito
de borda em nossa ecorregião
– a atividade humana.
Caça, corte ilegal
de árvores e retirada
ilegal de produtos florestais
não madeireiros são
mais pronunciados próximo
à borda, mas a atividade
humana penetra até
mil metros para o interior
da floresta. A caça
tende a diminuir o tamanho
da população
de muitas espécies
de grandes vertebrados nos
Neotrópicos e gerar
mudanças na estrutura
de comunidades de mamíferos
(Bodmer et al. 1997, Peres
2001, Bennett & Robinson
2001). Caça em pequenas
manchas de floresta podem
eliminar completamente algumas
espécies em curto espaço
de tempo. Por exemplo, fragmentos
florestais com cerca de 2.000
ha na Ecorregião Florestas
do Alto Paraná, na
porção oeste
do estado de São Paulo,
sob grande atividade de caça,
foram despovoados de antas,
queixadas e veados (Cullen
et al. 2000, 2001).
Em fragmentos florestais com
formas muito irregulares,
a relação superfície-área
é grande e, assim,
os efeitos de borda atingem
maior proporção
do fragmento (Davies et al.
2001). Por razões similares,
fragmentos menores têm
uma proporção
maior da área afetada
por efeitos de borda que outros
maiores (Furlan et al. 2000).
Fragmentos florestais muito
pequenos são completamente
afetados por efeitos de borda
e, como conseqüência,
não há possibilidade
em se preservar neles comunidades
intactas (Tabarelli et al.
1999).
Efeitos do tamanho. Ecólogos
têm admitido que há
uma relação
direta entre o tamanho do
fragmento e o número
de espécies (Rosenzweig
1995). Somente devido ao acaso
(i.e., “erro amostral”),
um pequeno fragmento pode
não incluir indivíduos
de espécies raras ou
pouco comuns. Da mesma forma,
a teoria de amostragem prediz
que pequenos fragmentos florestais
incluirão um número
menor de comunidades ecológicas.
Por serem estas comunidades
ecológicas compostas
por grupos singulares de espécies,
fragmentos florestais que
estão perdendo comunidades
terão sua diversidade
de espécies diminuída.
O risco da extinção
local de espécies dentro
dos pequenos fragmentos é
também maior devido
aos muitos fatores que contribuem
para o risco de extinção
de pequenas populações.
Primeiro, uma variação
ambiental aleatória,
como incêndios ou secas
severas, pode comprometer
uma pequena população.
Segundo, riscos determinísticos
(e.g., desmatamento contínuo
ou degradação
do habitat) também
podem dizimar uma população.
Terceiro, efeitos demográficos
aleatórios (e.g., uma
tendência pronunciada
na razão sexual nas
novas progênies) podem
levar pequenas populações
à extinção.
Quarto, o cruzamento entre
parentes com conseqüente
endogamia e perda de variação
genética são
mais comuns em pequenas populações
e fazem com que estas populações
respondam menos às
variações ambientais
e fiquem mais propensas à
extinção (Davies
et al. 2001). Em fragmentos
de aproximadamente 100 ha
de floresta tropical úmida,
um número substancial
de espécies de pássaros
de sub-bosque são perdidos
em duas décadas seguidas
de isolamento do fragmento.
Para muitas espécies
de pássaros tropicais,
fragmentos florestais inferiores
a 100 ha terão pouco
valor de conservação
(Ferraz et al., no prelo).
(continua)
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