Foto: Liviam Cordeiro Beduschi - WWF-Brasil Foto: José & Adriana Calo Foto: WWF-Canon/Michel Gunther Foto: WWF-Canon/Michel Gunther Foto: WWF-Canon/Michel Gunther
 

CAPÍTULO 3

OBJETIVOS PARA ALACANÇAR OS RESULTADOS
DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE

Quadro 4 (...)

Embora nossos esforços estejam concentrados na preservação de grandes blocos de floresta relativamente intacta e nas conexões destes a outros fragmentos florestais por meio de corredores de floresta nativa, não descartamos o valor da conservação dos pequenos fragmentos. Há muitas maneiras pelas quais pequenos fragmentos podem contribuir para a conservação. Primeiro, pequenos fragmentos florestais podem cumprir uma função importante na proteção de microbacias hidrográficas e dos solos. Segundo, eles podem servir como trampolins ecológicos, ilhas que indicam o caminho para a criação de futuros corredores biológicos.

Terceiro, eles podem funcionar como refúgio de inverno para alguns pássaros migratórios locais e de locais distantes. Quarto, eles podem fornecer as sementes que facilitam os programas de recuperação florestal local (Cullen et al. 2001, Valladares-Padua et al. 2002). Quinto, alguns dos pequenos fragmentos podem ainda conter espécies não encontradas nas demais ecorregiões. Finalmente, eles podem assumir importantes funções culturais, estéticas e educacionais.

O maior desafio para alcançar os objetivos permanentes de conservação da biodiversidade na Ecorregião Florestas do Alto Paraná é, então, manter os grandes blocos de floresta relativamente intactos e conectá-los a outros blocos através de um sistema de corredores. Pequenos fragmentos podem servir como trampolins ecológicos, que além de facilitarem o fluxo gênico de várias espécies podem também ajudar no planejamento e estabelecimento dos corredores biológicos. Com a criação de novas áreas protegidas, o manejo eficiente daquelas já existentes e o estabelecimento de corredores biológicos, juntamente com atividades econômicas ambientalmente compatíveis, acreditamos que ainda seja possível manter os principais processos ecológicos que sustentam a biodiversidade na ecorregião. O planejamento de uma paisagem que irá permitir que alcancemos estes objetivos de conservação requer uma minuciosa análise da fragmentação, juntamente com uma análise de riscos e oportunidades. Nossa previsão para a Ecorregião Florestas do Alto Paraná é que, dentro dos próximos 50 anos, a Paisagem de Conservação da Biodiversidade que planejamos se tornará realidade. O próximo capítulo descreve o processo pelo qual planejamos esta Paisagem de Conservação da Biodiversidade.

O quadro 4 discute alguns dos importantes aspectos da fragmentação, que são particularmente relevantes nesta ecorregião.


QUADRO 4

Os Problemas da Fragmentação: efeitos de borda,
efeitos do tamanho e isolamento

Efeitos de borda. Uma das conseqüências mais deletérias da fragmentação extrema das florestas é que organismos que sobrevivem em fragmentos de floresta estão expostos às condições bastante adversas do ecossistema antropizado que circunda a floresta. Estas condições são mais pronunciadas próximo à borda do fragmento, na interface entre a floresta e o novo ecossistema que a circunda. A intensidade dos efeitos de borda é freqüentemente medida como sendo a distância na qual o efeito é ainda notado dentro do fragmento florestal (Murcia 1995, Laurence et al. 2000). Os efeitos de borda podem ser classificados em três tipos básicos: efeitos abióticos (e.g., temperatura, radiação solar), efeitos bióticos diretos (e.g., mudanças na composição de espécies ou introdução de espécies exóticas) e efeitos bióticos indiretos (e.g., mudanças nas interações entre espécies próximo à borda, como aumento da taxa de predação) (Murcia 1995). As taxas anuais de mortalidade de árvores, dano às árvores e formação de clareira aumentam nitidamente até 100 m da borda da floresta e resultam em aumento da perda de biomassa viva e aumento da emissão de dióxido de carbono (Bierregaard et al. 1992, Laurence et al. 1998, Laurence et al. 2000). Alguns efeitos de borda podem ser notados até várias centenas de metros para o interior do fragmento de floresta, especialmente os efeitos bióticos, como a predação de ninhos e a invasão por espécies exóticas ou adaptadas à perturbação. (Murcia 1995, Laurence et al. 2000, Bright & Mattoon 2001). Como conseqüência destes efeitos de borda, as comunidades florestais são drasticamente alteradas próximo à borda. Por exemplo, espécies de árvore de interior de mata e de crescimento lento são substituídas por árvores pioneiras e secundárias (Benitez-Malvido 1998, Tabarelli et al. 1999).

Além dos três efeitos de borda descritos acima, adicionamos um quarto e muito importante efeito de borda em nossa ecorregião – a atividade humana. Caça, corte ilegal de árvores e retirada ilegal de produtos florestais não madeireiros são mais pronunciados próximo à borda, mas a atividade humana penetra até mil metros para o interior da floresta. A caça tende a diminuir o tamanho da população de muitas espécies de grandes vertebrados nos Neotrópicos e gerar mudanças na estrutura de comunidades de mamíferos (Bodmer et al. 1997, Peres 2001, Bennett & Robinson 2001). Caça em pequenas manchas de floresta podem eliminar completamente algumas espécies em curto espaço de tempo. Por exemplo, fragmentos florestais com cerca de 2.000 ha na Ecorregião Florestas do Alto Paraná, na porção oeste do estado de São Paulo, sob grande atividade de caça, foram despovoados de antas, queixadas e veados (Cullen et al. 2000, 2001).

Em fragmentos florestais com formas muito irregulares, a relação superfície-área é grande e, assim, os efeitos de borda atingem maior proporção do fragmento (Davies et al. 2001). Por razões similares, fragmentos menores têm uma proporção maior da área afetada por efeitos de borda que outros maiores (Furlan et al. 2000). Fragmentos florestais muito pequenos são completamente afetados por efeitos de borda e, como conseqüência, não há possibilidade em se preservar neles comunidades intactas (Tabarelli et al. 1999).

Efeitos do tamanho. Ecólogos têm admitido que há uma relação direta entre o tamanho do fragmento e o número de espécies (Rosenzweig 1995). Somente devido ao acaso (i.e., “erro amostral”), um pequeno fragmento pode não incluir indivíduos de espécies raras ou pouco comuns. Da mesma forma, a teoria de amostragem prediz que pequenos fragmentos florestais incluirão um número menor de comunidades ecológicas. Por serem estas comunidades ecológicas compostas por grupos singulares de espécies, fragmentos florestais que estão perdendo comunidades terão sua diversidade de espécies diminuída. O risco da extinção local de espécies dentro dos pequenos fragmentos é também maior devido aos muitos fatores que contribuem para o risco de extinção de pequenas populações.

Primeiro, uma variação ambiental aleatória, como incêndios ou secas severas, pode comprometer uma pequena população. Segundo, riscos determinísticos (e.g., desmatamento contínuo ou degradação do habitat) também podem dizimar uma população. Terceiro, efeitos demográficos aleatórios (e.g., uma tendência pronunciada na razão sexual nas novas progênies) podem levar pequenas populações à extinção. Quarto, o cruzamento entre parentes com conseqüente endogamia e perda de variação genética são mais comuns em pequenas populações e fazem com que estas populações respondam menos às variações ambientais e fiquem mais propensas à extinção (Davies et al. 2001). Em fragmentos de aproximadamente 100 ha de floresta tropical úmida, um número substancial de espécies de pássaros de sub-bosque são perdidos em duas décadas seguidas de isolamento do fragmento. Para muitas espécies de pássaros tropicais, fragmentos florestais inferiores a 100 ha terão pouco valor de conservação (Ferraz et al., no prelo). (continua)



 
Foto: Anibal Parera/FVSA
Sumário Executivo
 
Capítulo 1 – Conservação Ecorregional e a Visão de Biodiversidade
 
Capítulo 2 – A Ecorregião Florestas do Alto Paraná
 
Capítulo 3 – Objetivos para Alcançar os Resultados de Conservação da Biodiversidade
 
Capítulo 4 – Planejando uma Paisagem de Conservação da Biodiversidade – Metodologia
 
Capítulo 5 – Resultados:
A Paisagem de Conservação da Biodiversidade
 
Capítulo 6 – Estabelecendo prioridades e metas para ações de conservação
 
Referências Bibliográficas
 
Agradecimentos
 
Índice de Figuras de Tabelas