CAPÍTULO
1
CONSERVAÇÃO
ECORREGIONAL E A VISÃO DE
BIODIVERSIDADE
Quadro2 (...)
Planejamento
e ação em escala ecorregional
e com perspectiva de longo prazo
são essenciais para o alcance
dos resultados de conservação,
assim como para compatibilizar oportunidades
de desenvolvimento humano à
manutenção da diversidade
biológica. O alicerce da
Conservação Ecorregional
é a Visão da Biodiversidade
(Quadro 3). Uma Visão de
Biodiversidade é construída
a partir de uma análise dos
padrões de diversidade biológica
e dos riscos e oportunidades para
conservação ecorregional
e serve como um plano para as ações
conservacionistas – visando
a sobrevivência no longo prazo
da biodiversidade da ecorregião.
A Visão de Biodiversidade
é, portanto, uma ferramenta
para o planejamento, apresentada
geralmente na forma de um documento
como este, que visa orientar as
atividades de conservação
da biodiversidade na ecorregião.
A Visão de Biodiversidade
estabelece metas de conservação
da biodiversidade baseadas em princípios
amplamente aceitos da biologia da
conservação e identifica
áreas críticas a serem
conservadas, administradas ou recuperadas
para que tais metas sejam alcançadas.
Essas áreas são identificadas
por meio de procedimentos científicos
que se fundamentam nos melhores
dados de biodiversidade disponíveis,
assim como em informações
sócio-econômicas. Por
meio deste procedimento é
elaborada a Paisagem de Conservação
da Biodiversidade, representada
num mapa que mostra como a ecorregião
se apresentará em 50 a 100
anos se obtivermos êxito na
implementação das
ações de conservação,
manejo e recuperação
recomendadas. Essa Paisagem de Conservação
da Biodiversidade é uma peça
central da Visão de Biodiversidade
e a sua representação
em mapa ajuda a focar as atividades
de conservação nas
áreas da ecorregião
que renderão os melhores
resultados na conservação
da biodiversidade. A Visão
de Biodiversidade também
identifica metas claras para conservação
e serve como um instrumento para
priorizar ações de
conservação na ecorregião.
QUADRO
3
A Visão de Biodiversidade
como instrumento
para implementar a Conservação
Ecorregional
A
base da Conservação
Ecorregional é a Visão
de Biodiversidade, que vai
muito além da configuração
atual de áreas protegidas
e práticas de manejo.
Para conservar toda a gama
de biodiversidade por longo
tempo na maioria das ecorregiões
terrestres, as áreas
protegidas precisarão
ser muito maiores e mais numerosas
do que as que existem no mapa
de hoje. Além de colocar
mais habitats naturais sob
proteção, outras
atividades de conservação
– maior sustentabilidade
no uso dos recursos naturais,
proteção de
bacias hidrográficas,
estabelecimento de ONGs fortes,
legislação de
suporte, educação
ambiental – precisam
ser fortemente ampliadas,
tanto em abrangência
geográfica quanto em
intensidade. Portanto, em
cada ecorregião fazemos
a seguinte pergunta sob a
perspectiva da conservação:
como a ecorregião deveria
se apresentar em 10, 20 e
50 anos? Esse processo de
elaboração de
uma Visão de Biodiversidade
reforça nosso compromisso
com a recuperação
de ambientes biologicamente
valiosos porém degradados,
com a aplicação
da legislação
e implementação
dos programas que têm
como objetivo a proteção
da biodiversidade nativa e
com o apoio aos movimentos
em prol da conservação
que têm como base a
ecorregião.
Todas essas ações
levam tempo para serem desenvolvidas.
Portanto, a Visão de
Biodiversidade requer um planejamento
das atividades de conservação
em escalas espaciais mais
amplas e temporais mais longas
do as utilizadas no passado.
Para desenvolver a Visão,
os conservacionistas enfrentam
o desafio de inferir como
seria a paisagem da ecorregião
se a conservação
da biodiversidade obtivesse
êxito. Essa fotografia
do sucesso depende muito do
levantamento biológico
e do seu refinamento. Freqüentemente,
nossos esforços se
restringem à proteção
de áreas isoladas em
vez de desenvolver estratégias
de longo alcance para uma
conservação
bem sucedida em escala ecorregional.
Sem a Visão de Biodiversidade,
a Conservação
Ecorregional torna-se apenas
uma melhoria das técnicas
já existentes. A criação
da Visão, assim como
a implementação
de uma estratégia de
Conservação
Ecorregional, depende do envolvimento
ativo de vários atores,
em particular do governo local,
especialistas de muitas áreas,
grupos conservacionistas locais,
organizações
direcionadas ao desenvolvimento
e cidadãos dos países
onde se localiza a ecorregião.
O papel do WWF varia de acordo
com a ecorregião e
com o nível de elaboração
e implementação
das iniciativas de Conservação
Ecorregional. A Conservação
Ecorregional enfatiza a conservação
dos processos ecológicos,
de fenômenos evolutivamente
importantes, de alta diversidade
dentro de um grupo taxonômico
(gênero ou família)
e de tipos raros de habitat,
assim como os indicadores
taxonômicos mais tradicionais
de prioridade – riqueza
de espécies e endemismo.
Na análise biológica
da Conservação
Ecorregional enfatizamos os
grupos intactos ou praticamente
intactos de grandes vertebrados
como metas vitais para conservação
por estarem cada vez mais
raros em todo o mundo. São
identificadas áreas
e ambientes que suportam ou
que com algum trabalho de
recuperação
poderiam suportar grupos da
megafauna, tais como predadores
de topo da cadeia alimentar,
grandes herbívoros
e espécies-chave. Predadores
de topo, como onças,
leões da montanha,
lobos, leões, tigres
e leopardos, ajudam a controlar
populações de
herbívoros nativos.
Grandes herbívoros,
como elefantes, girafas, hipopótamos
e rinocerontes, influenciam
a estrutura do habitat através
de pisoteio e pastoreio. Espécies-chave,
como lontra do mar, figueiras
ou herbívoros-chave,
como castor, bisão,
veado e cães das pradarias,
são espécies
cuja remoção
ou declínio numa ecorregião
trariam um efeito negativo
desproporcional sobre a persistência
de outras espécies.
Também salientamos
a grande importância
de invertebrados menos conspícuos
e plantas vasculares diminutas
– os grupos taxonômicos
mais numerosos em espécies
em qualquer ecorregião
terrestre.
Finalmente, um objetivo secundário
da Conservação
Ecorregional é reduzir
o leque de riscos à
biodiversidade que ocorre
em diversas áreas da
ecorregião (e, por
vezes, ultrapassando seus
limites), em vez de atuar
numa base estritamente local
e pontual.
Retirado
de: DINERSTEIN et al. 2000.
A workbook for developing
biological assessments and
developing Biodiversity Visions
for ecoregion conservation.
Part I. Terrestrial ecosystems.
WWF - Conservation Science
Program.
|
O
WWF não pode trabalhar simultaneamente
em todas as mais de 200 ecorregiões
que constituem o “Global 200”
e, por isso, selecionou um subgrupo
de ecorregiões para direcionar
seus esforços como uma rede
internacional. A Mata Atlântica
da América do Sul foi uma
das ecorregiões selecionadas.
Este documento apresenta a Visão
de Biodiversidade para uma das ecorregiões
do Complexo de Ecorregiões
da Mata Atlântica, as Florestas
do Alto Paraná. Também
oferece uma descrição
técnica das análises
empreendidas para se chegar a essa
Visão ambiciosa. A Visão
de Biodiversidade está destinada
a estabelecer os fundamentos para
uma conservação de
longo prazo (50 a 100 anos) da biodiversidade
na Mata Atlântica do Alto
Paraná. Isto significa a
inclusão dos principais elementos
da biodiversidade e serve como um
novo conceito de organização
para enquadrar ações,
projetos, negociações,
riscos, oportunidades, parcerias
e atores. A Visão enfatiza
áreas onde se deve dar atenção
especial a fatores tais como planejamento
do uso da terra e de recursos, manejo
de bacias hidrográficas e
desenvolvimento social e econômico.
(Figura
1. As Ecorregiões Terrestres
Constantes no “Global 200”) |