| CAPÍTULO
2
A ECORREGIÃO FLORESTAS DO
ALTO PARANÁ
História natural da Ecorregião
Florestas do Alto Paraná
A
floresta que cobria originalmente
a Ecorregião Florestas do
Alto Paraná era a mais extensa
(471.204 km²) dentre todas
as ecorregiões do Complexo
Mata Atlântica, estendendo-se
desde a encosta oeste da Serra do
Mar, no Brasil, até o leste
do Paraguai e a Província
de Misiones, na Argentina (Figura
5). Ao norte, faz fronteira
com a Ecorregião Cerrado
que também é ecorregião
prioritária pela rede WWF
no “Global 200”. A vegetação
do Cerrado é bastante distinta
e sua fisionomia difere daquela
de Mata Atlântica. O Cerrado
é um mosaico de comunidades
florestais, com espécies
arbóreas de lento crescimento
adaptadas às chuvas estacionais
e à presença de fogo
e savana. Entretanto, as matas ciliares
do Cerrado contêm espécies
típicas da Mata Atlântica.
A oeste encontra o Pantanal e o
Charco Úmido, uma região
sujeita a inundações,
caracterizada por florestas de galeria,
savanas, campos inundáveis
e florestas decíduas nas
áreas não inundáveis.
Ao sul faz fronteira com uma área
de pradarias. Finalmente, a leste,
mistura-se à Ecorregião
Florestas de Araucárias,
outra ecorregião do Complexo
Mata Atlântica. A fronteira
com a Ecorregião Florestas
de Araucárias não
é claramente definida, sendo
muitas vezes difícil identificar
onde uma começa e a outra
acaba. Ambas ecorregiões
têm sido classificadas como
apenas uma. Com exceção
de algumas poucas espécies
que caracterizam a Ecorregião
Florestas de Araucárias,
tais como duas coníferas,
o dominante pinheiro do Paraná
ou pinheiro-macaco (Araucaria
angustifolia) e o Podocarpus
sp, além de um pequeno grupo
de espécies associadas a
estas espécies, como o chapim
(Leptasthenura setaria),
muitas delas ocorrem em ambas ecorregiões.
A vegetação predominante
na Ecorregião Florestas do
Alto Paraná é a floresta
estacional semidecidual. Porém,
as variações locais
no ambiente e no tipo de solo permitem
a ocorrência de outras comunidades
de plantas – florestas de
galeria, bambusais e palmitais (Euterpe
edulis). A maioria das florestas
remanescentes foi explorada para
obtenção de madeira
e algumas são florestas secundárias
que regeneraram depois do desmatamento.
Os fragmentos florestais, portanto,
são compostos tanto por florestas
primárias como por secundárias,
em diferentes estádios de
sucessão.
A Ecorregião Florestas do
Alto Paraná está situada
na parte sul do Planalto Brasileiro.
A topografia da região varia
desde áreas relativamente
planas, com solos profundos, próximas
ao rio Paraná e a outros
rios principais, em altitudes entre
150 e 250 m acima do nível
do mar (anm), a planaltos relativamente
planos, com altitudes entre 550
e 800 m anm. As áreas localizadas
entre os rios principais e o planalto,
em altitudes entre 300 e 600 m anm,
têm escarpas relativamente
íngremes e são extremamente
expostas à erosão
do solo quando a cobertura florestal
é removida (Ligier, 2000).
Em altitudes acima de 700 a 900
m anm esta ecorregião cede
lugar à Ecorregião
Florestas de Araucárias,
a oeste, e ao Cerrado, ao norte.
Os solos da ecorregião são
relativamente ricos em nutrientes.
São geralmente profundos
e de cor avermelhada, quando próximos
aos rios principais, tornando-se
menos profundos e mais pedregosos
em maiores altitudes. Existe grande
variação de tipos
de solos, com alteração
da textura, composição
química e acidez (Ligier,
2000; Fernández et al., 2000).
A ecorregião tem clima subtropical.
A temperatura média anual
varia de 16 a 22oC e tem relativamente
alta amplitude anual. Na parte sul
da ecorregião, as geadas
são comuns durante os meses
de inverno (de junho a agosto),
especialmente em maiores altitudes.
A precipitação da
ecorregião fica na faixa
de 1.000 a 2.200 mm por ano e é
geralmente menor na parte norte
do que na parte sul. As chuvas não
são uniformemente distribuídas
no ano e em algumas partes da ecorregião
ocorrem períodos secos de
até 5 meses, normalmente
no inverno. O aumento das chuvas
nos anos de El Niño ocasiona
grandes variações
na precipitação anual.
A precipitação e a
forte característica sazonal
em termos de temperatura e luminosidade
determinam um padrão estacional
na produtividade primária
da floresta (Placci et al., 1994;
Di Bitetti, não publicado).
Nesta Ecorregião ocorre grande
variação sazonal na
disponibilidade de alimentos para
espécies folífagas,
frugívoras e insetívoras.
Folhas novas, frutas e insetos são
mais abundantes nos meses da primavera,
de setembro a dezembro (Placci et
al., 1994; Di Bitetti & Janson,
2001).
As características naturais
da região formam um habitat
extremamente rico, abrigando inúmeras
espécies de plantas e animais,
entre elas, os espetaculares felinos
– a onça pintada (Panthera
onca), suçuarana (Felis
concolor) e jaguatirica (Felis
pardalis) (Crawshaw, 1995).
Outros mamíferos comuns incluem
a anta (Tapirus terrestris),
três espécies de veados
(Mazama americana, Mazama
nana e Mazama gouazoubira),
duas espécies de queixada
(Tayassu pecadi e Tayassu
tajacu), quati (Nasua nasua)
e quatro espécies de macacos
(Cebus apella nigritus,
Alouatta caraya, Alouatta
fusca fusca e Leontopithecus
chrysopygus). Cerca de 500
espécies de pássaros
são encontradas, incluindo
cinco espécies de tucanos
(Ramphastos toco, Ramphastos
dicolorus, Pteroglossus
castanotis, Baillonius
bailloni e Selenidera maculirostris).
Répteis e anfíbios
também apresentam alta diversidade,
incluindo jacarés, tartarugas,
jibóias e outras serpentes
(incluindo diversas espécies
endêmicas do gênero
Bothrops, tais como a Bothrops
jararacusu), lagartos e anfíbios
espetaculares, como o sapo Bufo
crucifer e ranídeos como
Osteocephalus langsdorffi,
Hhyla faber e Phyllomedusa
iheringi. Alguns animais são
considerados em risco ou em vias
de extinção, como
a ariranha (Pteronura brasiliensis),
o mico-leão-preto (Leontopithecus
chrysopygus), a jacutinga (Aburria
jacutinga), o solitário macuco
(Tinamus solitarius), o pato-mergulhão
(Mergus octosetaceus),
o lobo guará (Chrysocyon
brachyurus), o cervo-do-pantanal
(Blastocerus dichotomus),
o papagaio-de-peito-roxo (Amazona
vinacea), a araponga (Procnias
nudicollis) e a harpia (Harpia
harpyia). Algumas espécies,
como a onça pintada, a harpia,
a ariranha e a queixada, necessitam
de grandes extensões de floresta
contínua para sobreviverem
por longo tempo – o que representa
um grande desafio de conservação
em paisagens constituídas
por fragmentos. Algumas espécies
da Ecorregião Florestas do
Alto Paraná têm uma
distribuição bastante
limitada, constituindo um endemismo
local, como o mico-leão-preto,
restrito a uma pequena área
no oeste do estado de São
Paulo (Cullen et al., 2001) e o
sapo Urugua-í (Crossodactylus
schmidti), endêmico de
uma pequena parte de província
de Misiones, na Argentina (Chebez
& Casañas, 2000).
Os níveis de biodiversidade
alfa e beta (1) são bastante
altos na ecorregião, embora
existam poucos locais onde se tenha
feito um levantamento intensivo.
Por exemplo, na Reserva de Recursos
Manejados de San Rafael, Paraguai,
foram levantadas 378 espécies
de pássaros mas estima-se
que estejam presentes na área
entre 400 e 450 espécies
(Clay et al., 2000). As áreas
do Parque Nacional do Iguaçu,
no Brasil, e o Parque Nacional Iguazú,
na Argentina, estão entre
os locais melhor estudados na ecorregião,
com 460 espécies de pássaros
(Saibene et al., 1993) e mais de
250 espécies de árvores.
Foram levantadas entre 53 e 73 espécies
de árvores por ha (dap >
10 cm) em parcelas experimentais
no Parque Nacional Iguazú
(Placci & Giorgis, 1994; S Holtz,
comunicação pessoal).
Somente neste parque, registrou-se
a presença de 85 espécies
de orquídeas, o que representa
cerca de 1/3 das espécies
conhecidas em toda a Argentina (Johnson,
2001). Também foram identificadas
mais de 3.000 espécies de
plantas vasculares na província
de Misiones, o que representa cerca
de 1/3 do total da flora vascular
da Argentina (Zuloaga et al., 2000;
Giraudo et al., no prelo).
As florestas desta ecorregião
cumprem um papel importante na conservação
das microbacias hidrográficas.
Elas asseguram a quantidade e a
qualidade da água, essenciais
para a conservação
dos rios e córregos do Alto
Paraná, uma ecorregião
de água doce do “Global
200” (Figura
6). Com uma fauna notavelmente
diversa, incluindo mais de 300 espécies
de peixes, além de diversos
vertebrados e invertebrados aquáticos,
a ecorregião dos rios e córregos
do Alto Paraná apresenta
um alto grau de endemismo de espécies
de água doce (Olson et al.,
2000).
A Ecorregião Florestas do
Alto Paraná está situada
sobre uma grande extensão
do maior reservatório aqüífero
do mundo – o Aqüífero
Guarani. Este aqüífero
se estende por uma área total
de 1,2 milhões de km²,
desde a região centro-oeste
do Brasil passando pelo Paraguai,
nordeste da Argentina e centro-oeste
do Uruguai (Facetti & Stichler,
1995). O volume atual da reserva
de água doce é de
cerca de 40.000 km³. A sua
profundidade varia desde quase zero,
no Brasil, até mais de 1.000
m, na Argentina (Fili et al., 1998).
Apesar da grande reserva de água
na superfície, o suprimento
de água potável nessa
região de alta densidade
demográfica depende cada
vez mais dessa água do subsolo.
No futuro, podem ocorrer problemas
se a exploração não
for feita de maneira sustentável
ou se essa água tornar-se
poluída. Devido à
sua significativa profundidade média,
o Aqüífero Guarani praticamente
ainda não foi afetado pela
poluição superficial
(The World Bank, 1997). Entretanto,
o rápido desenvolvimento
da agricultura na região
pode potencialmente poluir esse
valioso recurso, especialmente no
Brasil, onde o aqüífero
está bem próximo à
superfície. Este é
um exemplo bastante claro da necessidade
do planejamento de conservação
e de ações numa escala
ecorregional.
Demografia
e divisões políticas
Existem diferenças significativas
na demografia e no número
de unidades políticas que
constituem a ecorregião em
cada um dos três países.
No Brasil, vivem hoje na Ecorregião
Florestas do Alto Paraná
cerca de 25 milhões de pessoas.
Desse total, 18,6 milhões
são classificadas como urbanas
e 6,4 milhões como população
rural. Essa área se estende
por sete estados brasileiros (Goiás,
Mato Grosso do Sul, Minas Gerais,
Paraná, Rio Grande do Sul,
Santa Catarina e São Paulo),
dividindo-se em 1.374 municípios.
No Paraguai, a Ecorregião
Florestas do Alto Paraná
tem uma população
de 2,5 milhões, dividida
aproximadamente pela metade entre
as áreas urbanas (1,24 milhão)
e rurais (1,23 milhão). A
área é dividida em
10 departamentos (Alto Parana, Amambay,
Caaguazu, Caazapa, Canindeyu, Concepcion,
Guaira Itapua, Paraguary e San Pedro),
que são subdivididos em 123
municípios. Na Argentina,
a ecorregião inclui apenas
uma província – Misiones
– que tem uma população
total de 788.000, das quais 500.000
são urbanas e 288.000 são
da área rural. A província
é dividida em 75 municípios.
Tendo recentemente emergido de governos
ditatoriais, os três países
encontram-se em processo de descentralização,
transferindo mais poder do governo
federal para os municípios,
particularmente nas questões
do uso da terra. O Brasil é
o país mais avançado
nesse processo de descentralização,
seguido pela Argentina. O governo
do Paraguai continua a ser o mais
centralizado. Os governos municipais
necessitarão de forte capacitação
para cumprir novas responsabilidades.
(1) Biodiversidade
beta é definida como a alteração
de espécies dentro de determinada
área ou ao longo de um determinado
gradiente, como altitude. Contrasta
com a biodiversidade alfa, que é
corresponde ao número de
espécies em determinado local
ou habitat mais ou menos uniforme. |