| CAPÍTULO
2
A ECORREGIÃO FLORESTAS DO
ALTO PARANÁ
Uso
insustentável das florestas
nativas
O
uso insustentável das florestas
nativas com o “convencional”
ou “tradicional” corte
de árvores também
tem degradado os remanescentes florestais.
A exploração das florestas
nativas tem sido tradicionalmente
conduzida de maneira predatória
e insustentável (ver Rice
et al., 2001). Está provado
que o corte convencional de árvores
causa impactos severos na biodiversidade
(Putz et al., 2000). No Alto Paraná,
o corte convencional seletivo de
árvores nativas causa, como
efeito mais direto, o empobrecimento
da floresta, bem como mudanças
na estrutura da vegetação
e na composição do
solo. Também pode aumentar
a dominância de algumas espécies
arbóreas e reduzir a regeneração
natural da floresta (Mac Donagh
et al., 2001).
Inicialmente, apenas algumas poucas
espécies de árvores
nativas (4 em Misiones, por exemplo)
eram cortadas para madeira. Porém,
como essas começaram a ficar
escassas, o número de espécies
exploradas aumentou. Atualmente,
entre 20 e 40 espécies são
abatidas regularmente (Laclau, 1994).
As florestas nativas exploradas
geralmente sofrem um processo de
invasão por espécies
nativas de bambu que ocupam as clareiras
e aparentemente dificultam a regeneração
natural da floresta. Sabe-se que
várias comunidades de aves
estão associadas a florestas
em diferentes estádios sucessionais.
As florestas secundárias
contêm mais espécies
de borda e perdem espécies
da floresta primária (Protomastro,
2001). Entretanto, pouco se sabe
sobre mudanças na composição
de espécies em relação
a diferentes tipos e graus de exploração
das florestas primárias (ver
Mac Donagh et al., 2001). Um dos
maiores impedimentos em reverter
essa tendência de exploração
insustentável, e conseqüente
degradação das florestas,
é que não existe informação
científica suficiente sobre
composição, estrutura
e dinâmica das florestas ou
sobre as melhores formas de manejo
responsável.
Existem leis que protegem a cobertura
florestal nativa nos três
países. Segundo elas, são
necessários planos de manejo
para exploração das
florestas nativas. Entretanto, esse
planos ou leis são insuficientes
ou não são eficientemente
fiscalizadas. A situação
da exploração da floresta
nativa é diferente nos três
países.
Na Argentina, as florestas nativas
são exploradas somente fora
das áreas de proteção
integral. A autoridade competente
da província de Misiones
(Dirección de Bosques) exige
um plano de manejo para exploração
da floresta nativa, mas esses planos
geralmente não garantem o
uso sustentável das florestas
porque são claramente não
sustentáveis e/ou não
são bem implementados, resultado
da falta de fiscalização.
Além disso, algumas evidências
sugerem que uma importante fração
das madeiras é extraída
e comercializada ilegalmente.
No Paraguai, as florestas nativas
são eficientemente protegidas
em algumas reservas ou em áreas
de difícil acesso (Cordillera
San Rafael, por exemplo). Entretanto,
a maior parte dos fragmentos de
floresta nativa está sofrendo
um processo de exploração
insustentável e, em muitos
casos, ilegal, incluindo florestas
dentro de parques nacionais implantados.
A maior parte da madeira abatida
ilegalmente é transportada
para os mercados brasileiros, o
que é facilitado pela falta
de controle, pela corrupção
generalizada entre os funcionários
públicos responsáveis
pelo cumprimento da lei e pela existência
de inúmeras estradas na fronteira
com o Brasil.
No Brasil, a situação
é bastante diferente devido
à ausência quase completa
de grandes remanescentes de floresta
primária que tenham madeiras
valiosas fora das áreas de
proteção integral.
A maior parte dos fragmentos florestais
que não estão dentro
dessas áreas protegidas são
pequenas manchas de floresta secundária.
Embora seja proibido pelo Código
Florestal Brasileiro, muitas áreas
particulares de mata ciliar têm
sido totalmente desmatadas. Atualmente,
o Decreto Presidencial 750, de 1993,
proíbe qualquer corte de
árvores na Mata Atlântica,
seja de formação primária
ou secundária. Ao mesmo tempo,
está em tramitação
no Senado Federal o projeto de Lei
da Mata Atlântica (PL 285/99),
que dispõe sobre a utilização
e a proteção da Mata
Atlântica.
No Brasil, São Paulo é
o maior mercado para madeira irresponsavelmente
abatida no Paraguai ou na Argentina.
Buenos Aires também recebe
uma porção considerável
da madeira extraída em Misiones.
O mercado local tem apenas um pequeno
papel no consumo de madeira dessa
ecorregião.
Além da extração
de madeira para construção
civil ou movelaria, os remanescentes
florestais estão sob forte
pressão para extração
de lenha. Por exemplo, em várias
regiões de Santa Catarina
e Paraná não existe
encanamento de gás ou óleo
para suprimento de energia. A maioria
da população rural
usa lenha ou carvão (produzidos
localmente) para aquecimento, para
cozinhar ou na secagem de alimentos.
A produção de fumo,
um dos principais produtos de Santa
Catarina e em franca expansão
no Paraná, necessita de grande
quantidade de lenha, que é
obtida localmente, nos remanescentes
de floresta secundária (Hodge
et al., 1997). Em Misiones, a secagem
da erva-mate também é
feita com a lenha obtida das florestas
secundárias, o que vem tornando
este um recurso escasso para os
produtores de erva-mate (S. Holz,
comunicação pessoal).
Caça
insustentável
A caça da maioria de animais
silvestres está proibida
por lei nos três países,
com exceção da permissão
e regulamentação da
caça de algumas poucas espécies.
A população local
dos três países tem
o direito legal de caçar
no modo tradicional. Entretanto,
a caça ilegal é generalizada
na ecorregião. As florestas
nativas estão empobrecidas
como conseqüência da
extinção local e redução
drástica das populações
das espécies caçadas
(Cullen et al., 2000, 2001), sofrendo
a “síndrome da floresta
vazia” (Bennett et al., 2002).
É difícil o controle
da caça ilegal nos três
países, uma vez que a maioria
das instituições governamentais
não dispõem de recursos
técnicos e financeiros para
fiscalizar o cumprimento da lei
(para Misiones, ver Cinto &
Bertolini, no prelo). Além
disso, a caça tem fortes
raízes culturais e, em alguns
casos, também econômicas
(Giraudo & Abramson, 1998).
Os diferentes setores da população
executam diferentes tipos de caça.
Nos três países, existe
uma forte tradição
cultural de caça, praticada
nos momentos de folga, geralmente
nos fins-de-semana. A caça
esportiva é praticada por
pessoas que moram nas cidades e
que têm recursos financeiros.
As pessoas da área rural,
que moram nas proximidades das florestas,
caçam não somente
por esporte ou por razões
culturais mas por suas necessidades
protéicas. O mesmo acontece
com os trabalhadores das companhias
madeireiras com baixa remuneração,
que complementam suas dietas com
a carne dos animais silvestres caçados,
durante o fim-de-semana, nas áreas
onde estão trabalhando. Os
moradores das áreas rurais
também caçam animais
que consideram pestes, geralmente
devido a danos que possam causar
aos animais domésticos. Por
exemplo, onças e outros carnívoros
são caçados porque
podem atacar as criações
(Schiaffino, 2000; Pereira Leite
Pitman, 2002). As serpentes são
exterminadas porque algumas poucas
espécies representam perigo
para seres humanos e animais domésticos.
Além disso, também
existe a caça ilegal organizada,
que abastece os mercados locais
de carnes exóticas, como
ocorre no Brasil, onde alguns restaurantes
oferecem pratos especiais de carne
de caça. A carne de caça
também é usada no
preparo de carne seca e processada.
Algumas comunidades autóctones
ainda praticam a caça de
subsistência (por exemplo,
os Aché no Paraguai, e algumas
comunidades Mbyá no Paraguai
e na província de Misiones,
na Argentina). Entretanto, mesmo
as práticas de caça
tradicional são atualmente
insustentáveis, pois a população
humana tem densidade relativamente
alta em muitas áreas da Mata
Atlântica do Alto Paraná,
os fragmentos florestais são
pequenos (2) e as espécies
caçadas encontram-se em baixas
densidades por toda a ecorregião
(3).
As raízes da degradação
ambiental
Muitas das causas da degradação
e fragmentação das
florestas descritas acima são
o que se pode chamar de causas aproximadas.
As raízes da degradação
e das perdas florestais na ecorregião
incluem:
• Altas taxas de crescimento
populacional (tanto devido a alta
taxa de nascimento, como também
de imigração), altas
taxas de analfabetismo e altas
taxas de mortalidade infantil
– indicadores sociais que
constituem componentes críticos
da crise ambiental e sócio-econômica
nesta ecorregião (Laclau,
1994; SEPA, 2000).
• O baixo valor dado pela
maioria das pessoas às
florestas nativas, que historicamente
é vista como impedimento
ao desenvolvimento (Laclau, 1994;
Hodge et sl., 1997).
• Falta de capacidade de
fiscalizar e fazer cumprir a legislação,
devido à fragilidade das
instituições governamentais,
à falta de treinamento
dos servidores públicos,
ao uso ineficiente dos recursos
(Cinto & Bertolini, no prelo),
ou simplesmente devido à
corrupção generalizada.
• Falta de consciência
do público sobre os problemas
ecológicos da ecorregião
(Laclau, 1994). Essa situação
se intensifica devido às
altas taxas de analfabetismo nos
três países.
• Falta de alternativas
econômicas e conhecimento
de práticas de uso sustentável
(Holz & Placci, no prelo;
Colcombet & Noseda, 2000).
• Profunda crise econômica
na região, acrescida de
alguma instabilidade política.
Muitas dessas causas básicas
podem estar atreladas a um sistema
econômico injusto que concentrou
terra e recursos nas mãos
de poucos e que marginalizou uma
grande parte da população,
privando-a de suas necessidades
mais básicas. Mesmo não
sendo o objetivo da Visão
de Biodiversidade solucionar os
problemas sociais e econômicos
da ecorregião, devemos levá-los
em consideração na
fase de planejamento da estratégia
de conservação da
Ecorregião Florestas do Alto
Paraná.
(2) Os fragmentos florestais remanescentes
são geralmente pequenos demais
para manter populações
viáveis de espécies
para caça.
(3) A maioria das florestas tropicais
e subtropicais sustentam menos vida
silvestre, especialmente de ungulados
e outros grandes animais de caça,
do que os campos e savanas, pois
a maior produtividade daqueles ambientes
florestais está localizada
principalmente no dossel (ver Bennett
& Robinson, 2001; Bennett et
al., 2002).
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