
A Floresta Ombrófila
Densa, ou Mata Atlântica da Serra do Mar, pode ser considerada
como a Floresta mãe da nação brasileira.
Aparece em todos os registros a partir da colonização.
Ora por sua abundante vegetação e beleza, ora
pelos costumes de seus primeiros habitantes, os índios.
Cronologicamente, a Mata Atlântica
do Corredor da Serra do Mar sofreu diversas influências
assim como ela influenciou seus colonizadores. Na Vila de
São Vicente, no litoral de São Paulo por exemplo,
os jesuítas e portugueses tinham que atravessar toda
a região conhecida atualmente como Caminho do Mar.
O Padre José de Anchieta, na sua Carta de São
Vicente, redigida em 1560 faz um extenso relato sobre fauna,
flora e moradores da Mata Atlântica:
A Mata
Atlântica de Anchieta
Relata o Padre Jose de Anchieta,
em 1560, na sua Carta de São Vicente , sobre o território
onde se ergueria a cidade de São Paulo, então
chamada de Piratininga, e sobre o “movimento do tempo”:
“Todavia, em Piratininga,
que fica no interior das terras, a 30 milhas do mar, e é
fornada de campos espaçosos e abertos, e em outros
que se lhe seguem para o ocidente, a natureza procede de tal
maneira que, se os dias se tornam extremamente cálidos
por causa do calor abrasador (cuja maior fôrça
é de novembro a Março), a vinda da chuva lhes
vem trazer refrigério: cousa que aqui acontece agora.
Para explicar isso em breves palavras: no inverno e no verão
há grandes chuveiros, que servem para temperar os ardores
do sol, de sorte, que precedem de manhã ao estio, ou
vêm à tarde. Na primavera, que principia em Setembro,
e no estio, que começa a vigorar em Dezembro, as chuvas
caem abundamentemente, com grande tormenta de trovões
e relampagos.
Então, há não
só enchentes de rios, como grandes inundações
dos campos; nessas ocasiões, uma imensa multidão
de peixes, que saem das águas para pôr ovas,
deixam-se apanhar sem muito trabalho entre as ervas, e compensam
por algum tempo o dano causado pela fome que trouxera a subversão
dos rios. Assim, êste tempo é esperado com avidez,
como alívio da passada carestia: a isto chamam os índios
de piracema, isto é, “a saída dos peixes”;
por enquanto, duas vezes cada ano, quase sempre em Setembro
e Dezembro e algumas vezes mais freqüentemente, deixam
os rios e se metem pelas ervas em pouca água para desovar;
mas no estio, como é maior a inundação
dos campos, saem mais consideráveis cardumes e são
apanhados em pequenas redes e até mesmo com as mãos,
sem aprêsto nenhum.
Finalmente os grandes calores
do verão são moderados pela muita abundancia
de chuvas; no inverno, porém (passado o outono que,
começando em Março, acaba numa temperatura agradável),
cessam as chuvas; a fôrça do frio torna-se horrível,
sendo maior em Junho, Julho e Agosto; nesse tempo vimos muitas
vezes não só as geadas espalhadas pelos campos
a queimarem arvores e ervas, como também a superfície
da água toda coberta de gêlo.Então esvasiam-se
os rios e baixam até o fundo, de sorte que se acostuma
apanhar à mão, entre as ervas, grande porção
de peixes.”
“...Encontram-se também
entre nós as panteras, das quais há duas variedades:
umas são de cor de veado, menores essas e mais bravias;
outras são malhadas e pintadas de várias cores:destas
encontram-se em todos os lugares (1); os machos, pelo menos,
excedem no tamanho a um carneiro, embora grande, pois as fêmeas
são menores; são em tudo semelhantes aos gatos
e boas para se comerem, o que experimentamos algumas vezes;
são de ordinário medrosas e acometem pela retaguarda;
dotadas porém de grande força, cm um só
golpe faz unhas ou uma dentada dilaceram tudo quanto apanham;
escondem as presas debaixo da terra, segundo afirmam os Índios,
e ai as vão comendo até consumirem. São
de extrema ferocidade, o que, conquanto possa ser comprovado
por muitos fatos, que sucessivamente e de quando em quando
se dão, bastará referir dois ou três para
mostrá-lo”.
(1) As duas espécies
de Felídeos, mencionadas por Anchieta, são a
onça parda ou sussuarana (felis concolor L.) e a onça
pintada ou jaquar (felis onça L.).Além dessa,
que são as maiores, há mais sete na fauna brasileira.(
Nota de o Dr. Afrânio do Amaral, diretor do Instituto
Butantan, dr. Oliverio Mario de Oliveira Pinto, assistente
do Museu Paulista, e sr. Pio Lourenço Corrêa,
para a edição “Caderno No 7 da Reserva
da Biosfera da Mata Atlântica – Carta de São
Vicente- 1560”.
Não eram apenas
os jesuítas os impressionados com a região conhecida
hoje como Corredor da Serra do Mar.
Hans Staden
O
alemão Hans Staden, fez minuciosos relatos também
do litoral paulista e de sua convivência com os diversos
grupos indígenas que ali habitavam: tupinambás
e seus inimigos tupiniquins.
"São Vicente é
uma ilha que fica bem próxima da terra firme e tem
dois povoados. Um deles se chama, em português, São
Vicente, mas, na língua dos selvagens, Upau-Nema. O
outro, localizado cerca de duas milhas de distância,
chama-se Enguaguaçu. Além disso, há na
ilha algumas fazendas, denominadas engenhos, onde se produz
açúcar.
Os portugueses que ali moram
são aliados de uma tribo de índios, os Tupiniquim,
cujo território estende-se por cerca de 80 milhas em
direção ao interior e 40 milhas ao longo da
costa.
Essa tribo tem inimigos tanto
ao sul quanto ao norte.Os do sul são os Carijó,
os do norte são os Tupinambá, chamados também
tabairas por seus inimigos, o que significa a mesma coisa
que ‘inimigo’. Os portugueses têm que estar
sempre atentos aos Tupinambá, que já lhe causaram
graves danos.
Enguaguaçu-´”
canal ou braço grande” onde se ergueu depois
a cidade de Santos; também “pilão grande”.
Tupinambá- “ geração do progenitor”;
alusão aos “ pais primordiais” dos Tupis."
Minas Gerais
Em
Minas Gerais, de acordo com os limites do Corredor de Biodiversidade
da Serra do Mar (CI), são abrangidos pontos importantes,
como partes da Serra da Mantiqueira.
No contexto histórico,
esta Serra coberta de Mata Atlântica também teve
importantes ciclos de ocupação do solo e personagens.Neste
link, saiba um pouco mais sobre a Serra da Mantiqueira.
SERRA DA MANTIQUEIRA - HISTÓRIA DE
OCUPAÇÃO - 1936-2004
(trechos do livreto Ocupação
da Serra da Mantiqueira - autora: Joana P. Luiz
da Costa/ Adaptação a partir da
tese de mestrado ”Ambientalismo e Mundo
Rural em Itamonte (MG):Reserva da Biosfera”
apresentada ao CPDA/ UFRJ em 2003.)
A origem do nome
Segundo o Atlas das Unidades de Conservação
do Estado do Rio de Janeiro, o termo Mantiqueira
é de origem Tupi-Guarani, cujo provável
significado é “local em que se
originam as águas”.
No começo foi o ouro
Habitada desde tempos imemoriais pelos indígenas,
que deixaram resíduos arqueológicos
em diversas partes da região, a Serra
da Mantiqueira começa ser incorporada
ao que chamamos de civilização
com a chegada dos primeiros bandeirantes, no
século XVI.Descendo do município
de Taubaté-SP pelo rio Paraíba,
é no registro do Picú que os primeiros
bandeirantes atravessaram a cordilheira, fazendo
do local “ baliza para ponto de referência
no descobrimento dos demais lugares do sul de
Minas”. A migração para
a região das minas foi formando inúmeros
pousos às margens do rio Capivari. Originalmente
a cidade de Itamonte, em Minas Gerais , chamou-se
“ Pouso do Pico”, por ser próximo
do rochedo que servia como orientação
para os Bandeirantes. Foram plantadas as primeiras
roças no lugar que passou a ser chamado
“Pouso Alto” , e deste ponto de
apoio chegou-se ao ouro.
Na Serra da Mantiqueira , os municípios
de Alagoa e Aiuruoca atestam como a mineração
foi ativa no século XVIII.A ocupação
foi muito rápida.De Portugal vieram milhares
de aventureiros em poucas décadas.Com
a imigração vieram os escravos
africanos, que se juntaram aos índios
aprisionados.Os mamelucos paulistas ficaram
com as tarefas secundárias de plantio
e abastecimento das minas.
Na Serra da Mantiqueira, os municípios
de Alagoa e Aiuruoca atestam como a mineração
foi ativa no século XVIII. A ocupação
foi muito rápida. De Portugal vieram
milhares de aventureiros em poucas décadas.
Com a imigração vieram os escravos
africanos, que se juntaram aos índios
aprisionados. Os mamelucos paulistas ficaram
com as tarefas secundárias de plantio
e abastecimento das minas.
Os campos altos nativos serviram de imediato
a criação do gado e de burros
de carga, dando inicio a uma longa tradição
de derivados do leite. Com a decadência
da mineração muita gente voltou
para São Paulo e Rio de Janeiro, mas
alguns se acomodaram em busca da subsistência
na montanha, onde as terras eram mais férteis
que os cerrados e os carrascos das Gerais. Dos
núcleos camponenses, isolados, o mineiro
surgiu “com todo o seu retraimento, a
sua singileza e o seu patriarcalismo zeloso
das virtudes familiares”.
Atravessando a floresta
A Garganta do Registro separa os vertentes mineira
e fluminenses da montanha. Nesta ultima a floresta
densa persistiu inabalada por ainda 200 anos
após a penetração dos Bandeirantes.
Havia a selva entre os Campos Gerais e o litoral.
A mata virgem sem valor inicial para o colono
em busca de riqueza rápida. Quando em
meados do século XVIII Vila Rica, S.
João Del Rei e outras cidades mineira
esplendiam em cultura, toda a bacia serrana
da Paraíba nas zonas mineira e fluminenses
jaziam mergulhadas em mato bravo. Índios
coroados, Puris e de outras tribos, e todo o
poder da terra virgem afrontavam a penetração
do branco.
Minas Gerais deve muito ao isolamento conferido
pela mata o pitoresco de sua arte original,
tipicamente brasileira. Foi a mata, e não
a montanha que bi-secularmente retardou a penetração
civilizadora.
Tão grande foi o magnetismo do ciclo
aurífero que São Paulo e o Rio
de Janeiro, desconhecendo-se entre si, buscam
o ouro na montanha, enquanto o Vale do Paraíba
do Sul permanecia coberto pelo mato bravo. Através
do século XVIII, é lenta a penetração
do colonizador pela floresta secular.
Tudo mudou com o café
O desbravamento da floresta finalmente se dá
pela uniformização da mentalidade
coletiva dos seus povoadores, aferrada à
monocultura do café. Em 1785 o café
começa a ser plantado em Resende.
A ofensiva do café foi tão repentina
e acelerada, resultando na derrubada sem seleção
das espécies vegetais de valor. Através
da mão-de-obra escrava, a floresta foi
recuada para grimpas inacessíveis, cristas
pedregosas e inaproveitáveis.
Neste ciclo, a estruturação social
do vale do paraíba do Sul modificou-se
por completo, sobretudo na região fluminense.
A fortuna dos latifúndios cafeeiros projetava-se
na Corte, e vinham de volta a cultura e a pompa
da corôa. Assim se constitui a realização
do café, em um processo que dizimou a
floresta atlântica, exceto nas partes
mais altas da montanha.
Do café à pecuária
e indústria
Da esplendorosa cultura cafeeira no Vale do
Paraíba, restam apenas ruínas
e os sinais do desgaste dos solos. É
quando outra vez o fator geográfico mostra
sua influência sobre os fatores históricos
e econômicos, e uma atividade mais modesta,
a pecuária, substitui os cafezais. Nesse
momento a “psicologia do fluminense do
planalto irmanou-se, temporariamente, a do mineiro.
Mas foi uma transição que durou
pouco.
O vale do paraíba, ligando São
Paulo e Rio de Janeiro, e intermediário
entre as zonas produtoras minerais e os centros
urbanos de consumação e exportação,
e ainda com apreciáveis reservas de energia
elétrica, está estrategicamente
posicionado.
Com o advento da indústria, foi acelerada
a ocupação da região. Lamego
diferencia, em 1935, a densidade demográfica
da Mantiqueira nos três Estados: 42 habitantes/Km2
em São Paulo, 40 habitantes/Km2 no Rio
de Janeiro, e apenas 13 habitantes/Km2 em Minas
Gerais. Para a época, a crescente população
na região fluminense e paulista significava
um indiscutível sintoma das possibilidades
regionais.
Ainda hoje, a região mineira da Serra
da Mantiqueira apresenta uma expressiva parcela
da sua população vivendo no meio
rural.
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Mais adiante, na época
do Brasil Império, este deslumbramento passou para
uma preocupação de alguns intelectuais, já
atentos à ocupação irregular, a devastação
em massa e o mau uso dos nossos rios nesta região do
país.
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