Uma barrreira chamada Serra do Mar- ocupação e populações tradicionais

As comunidades tradicionais que ocuparam a Serra do Mar ao longo da costa brasileira são das mais variadas, nas mais diferentes épocas, até se chegar ao que temos hoje. Quilombolas, caiçaras, índios, ribeirinhos e outros aplicaram seus conhecimentos no uso do solo, implantação de alimentos, pesca, criação de animais e festas populares. Ao longo da Serra do Mar, por ser uma barreira natural, algumas comunidades tiveram poucas alterações nos hábitos ancestrais, adaptando-os agora á escassez dos recursos naturais, poluição desenfreada e o desemprego.

O professor e ambientalista Warren Dean, autor do antológico A Ferro e fogo, conta que existem evidências de caçadores-coletores na região da Mata Atlântica, que datam cerca de 11 mil anos:

“Os caçadores-coletores não desapareceram nas regiões montanhosas. Levantamentos arqueológicos recentes em diversos sítios de barragens hidrelétricas descobriram seus acampamentos, todos ao longo de altos trechos de cursos d´água, normalmente a uma distância de algumas centenas de metros das correntes, sugerindo talvez o quanto eram outrora extensas as florestas de galeria. Sua caça deve ter incluído diversas espécies de veado, macacos, capivaras, catitus, antas, pacas, coelhos e cutias- todos herbívoros, de pequeno ou médio porte.Alguns sítios dependiam em grande parte de caranguejos terrestres gigantes. A pesca era indubitavelmente um recurso crítico.Nem todos os rios da Mata Atlântica são produtivos, como revela a toponímia local: para cada “rio de peixe” existe um “ rio ruim” (Paranapanema).E pescar era uma atividade em grande parte sazonal no planalto, porque era difícil apanhar peixe nos meses chuvosos de águas profundas.Alguns sítios, no entanto, forneciam pesca abundante.Ainda em 1949, a pesca em Pirassununga, São Paulo, no Rio Mogi-Guaçu, rendia 150 toneladas por ano, uma ração plena de proteínas para mais de 3 mil pessoas, e, de fato, a área tem abundantes restos paleolíticos.

A julgar por relatos do século XIX, é possível que antigos caçadores-coletores utilizassem fogo para tocar sua presa e para eliminar a vegetação lenhosa que crescia na planície, substituindo-a por folhagens tenras para atrair herbívoros esparsos.Ateara fogo nas florestas talvez fosse mais eficaz.As criaturas invisíveis das copas das árvores- macacos, mutuns, preguiças, lagartos- abandonavam seu manto protetor e eram facilmente apanhadas. Queimadas leves periódicas da macega convertiam a floresta em um terreno de caça facilmente atravessado e vistoriado.”.

Figura importante do nosso litoral, especialmente na área de Serra do Mar, ainda é predominante a presença de comunidades caiçaras ao longo de sua faixa litorânea.

OS CAIÇARAS

Ao incorporar-se ao vernáculo do colonizador, a palavra caiçara alterou seu significado original- o de ser uma cerca de proteção- para nomear essas populações tradicionais dedicadas à pesca artesanal e agricultura de subsistência, e que durante mais de dois séculos se radicaram em praias e costões isolados mantendo-se à margem de um processo civilizatório. Mas, pensando bem, é verdade que havia algo como uma cerca que isolava essa gente do progresso dos planaltos. Era cerca alta e trabalhosa de galgar. A Serra do Mar. Da mistura e dos parentescos seculares entre os portugueses, franceses indígenas e negros, filhos do isolamento, nasceu o povo caiçara.

Antes deles estavam ali os índios, combatendo entre si, devorando uns aos outros, aldeia contra aldeia lutando pela posse das melhores terras para caça, das mais piscosas embocaduras de rio. Depois da chegada do europeu, para quase todos eles um inimigo comum, houve até uma tentativa de união entre as tribos. Durante cerca de meio século, por intermédio da Confederação dos Tamoios, os tupinambás ofereceram resistência sistemática ao colonizador branco, tentando proteger suas terras, impedindo o avanço colonial dessas plagas. Mas nada pôde se interpor à determinação dos europeus e suas naus de guerra na conquista da Capitania de Santo Amaro compreendida pelas areias e serras litorâneas desde Santos à Ubatuba.

E assim foi. No litoral norte caíram primeiros os índios e as árvores de pau-brasil.Para se erguer, logo em seguida, ciclos de sonhos:a cana–de-açúcar, o ouro das Minas Gerais a embarcar para a Europa por ali; e mais tarde o café plantado no planalto vizinho, também como matéria de exportação.

O homem do planalto, por sua vez, não soube cuidar da natureza esgotando a terra, fazendo findar mais ciclo.Sem o café, o litoral norte perdeu boa sorte de sua movimentação econômica.E neste século, com a riqueza e as atividades econômicas voltadas para a industrialização e para o crescimento urbano de São Paulo, esses homens praianos ficaram esquecidos à beira-mar, à deriva do progresso.Cuidaram de si, soltos na natureza. Esmeraram-se na arte de enlaçar os cardumes de tainha e sardinhas com suas redes, armando os cercos flutuantes, garimpando o oceano com suas rústicas canoas de um só tronco.Souberam sempre entender o vento. O traiçoeiro Sudeste, o mais temido de todos, a lançar barcos e traineiras nos costões de pedra.

Todo esse amplo conhecimento e manejo da natureza, adquirido de tanto mar, era transmitido de geração para geração oralmente, como faziam os índios.Daí a denominação de “povos tradicionais” para essas comunidades caiçaras.Com a vinda da estrada e do turismo, os mais tradicionais, os mais isolados, instalados em locais que viriam a ser incluídos nas áreas de preservação dos parques do litoral norte, acabaram permanecendo em suas áreas de origem, um pouco mais protegidos da especulação imobiliária.

A Vila de Picinguaba, tombada pelo CONDEPHAAT em 1979, é relíquia dos áureos tempos da pesca artesanal.Na antiga fazenda Picinguaba, a região foi colonizada por italianos e ocupada por atividade agrícola.Juntamente com a Fazenda Cambury , prosperou como produtora rural, com engenho de cana e casa de farinha. Os produtos eram escoados serra cima pelas trilhas do Corisco e Ubatumirim, ou nas canoas de voga, pelo mar, até Ubatuba.Divididos entre o mar e a serra, os homens lavravam o chão e recolhiam pescados no oceano, remetendo serra acima riquezas principais como farinha de mandioca e peixe seco.Os caiçaras de Picinguaba viveram sua glória maior como pescadores artesanais na década de 1930, quando juntamente com os da Ilha Anchieta angariaram o título de maior núcleo produtor de tainha, com média anual e 50 mil peixes.

Outros núcleos tradicionais ainda sobrevivem na Ilha de São Sebastião - Ilhabela e ilhotas vizinhas, como Vitória e Búzios.é o caso da comunidade do Bonete, no lado norte da Ilhabela, uma praia só alcançada por barco ou através de uma trilha na mata que exige mais de seis horas de caminhada para ser cumprida.

Identifica-se nos olhos claro e cabelos louros de sua gente, a antiga presença de piratas na ilha.De certa forma, os boneteiros estão protegidos pela dificuldade de acesso e pela simples presença do Parque.

A partir de 1950, com a abertura das primeiras estradas, a construção das casas de veraneio e dos hotéis vieram novo rostos para o litoral norte, que atualmente ostenta uma feição múltipla, diversificada e de muitas identidades.
(Não Matarás – pags. 146-147)

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