Estado do Mundo 2007 - Nosso Futuro Urbano
Cidades são cruciais para o combate à pobreza e mudança climática

The Worldwatch Institute

Washington, D.C. - Caso as prioridades desenvolvimentistas globais não forem reavaliadas para levar em conta a imensa indigência urbana, muito mais da metade do 1,1 bilhão de pessoas projetado a ser adicionado à população mundial ate 2030, viverá sob condições miseráveis, carentes de infra-estrutura, segundo o Estado do Mundo 2007: Nosso Futuro Urbano, divulgado pelo WWI. Embora as cidades cubram apenas 0,4% da superfície terrestre, representam a maior fonte de emissões mundiais de carbono, tornando-as cruciais para amenizar a crise climática, observa o relatório.

Até um século atrás, a grande maioria da população mundial vivia em áreas rurais, porém já no próximo ano mais da metade da população estará habitando centros urbanos. Anualmente, mais de 60 milhões de pessoas - aproximadamente a população da Franca - incham cidades e subúrbios, principalmente em regiões urbanas de baixa renda nos paises em desenvolvimento.

A urbanização desordenada e caótica causa um gigantesco ônus à saúde humana e à qualidade do meio-ambiente, contribuindo para a instabilidade social, ecológica e econômica em muitos paises. Dos 3 bilhões dos atuais moradores urbanos, 1 bilhão vive em "favelas", definidas como áreas carentes de necessidades básicas, como água potável, sanitários ou moradia permanente. Cerca de 1,6 milhão de moradores urbanos morrem anualmente devido à falta de água potável e saneamento.

"Para uma criança moradora de favela, doenças e violência são ameaças cotidianas, enquanto educação e saúde permanecem como sonhos distantes," diz Molly O`Meara Sheehan, Diretora de Projetos do Estado do Mundo 2007 . "Os legisladores precisam focar a 'urbanização da pobreza' incrementando investimentos em educação, saúde e infra-estrutura". Entre 1970 e 2000, a ajuda urbana mundial representou cerca de US$60 bilhões - apenas 4% do trilhão e meio de dólares aplicados em assistência desenvolvimentista.

A Comissão para a África identificou urbanização como o segundo maior desafio, depois do HIV/AIDS, que o continente de urbanização mais acelerada do mundo confronta. Apenas cerca de 35% da população africana é urbana, mas prevê-se que ate 2030 este percentual já terá atingido 50%. "A promessa de independência cedeu lugar às duras realidades da vida urbana, principalmente devido ao nosso despreparo frente ao futuro urbano", observa Anna Tibaijuka, Diretora Executiva da UN-HABITAT, no prefácio do livro.

O Estado do Mundo 2007 também descreve como grupos comunitários e governos municipais se colocaram na vanguarda de políticas pioneiras enfocando a pobreza e questões ambientais, superando, em alguns casos, os esforços de seus próprios governos federais. "A tarefa de salvar as cidades modernas mundiais pode parecer desanimadora - mas já esta acontecendo", declarou Christopher Flavin, Presidente do Worldwatch Institute. "As necessidades, de alimentos à energia, estão sendo supridas cada vez mais por pioneiros urbanos dentro de regiões metropolitanas."

Em maio Flavin chega ao Brasil acompanhado do diretor do WWI no país, Eduardo Athayde, para lançar o relatório. Entre os vários exemplos de cidades-líderes no desenvolvimento de um futuro sustentável, mencionadas no relatório:

Em Karachi, Paquistão, o Projeto Piloto Orangi conectou centenas de milhares de domicílios de baixa renda em assentamentos informais, à um sistema de esgoto de boa qualidade. Ao se responsabilizarem pela tubulação que liga suas residências ao sistema, os habitantes reduziram em um quinto o custo que lhes seria cobrado pelo órgão sanitário.
Em Freetown, Serra Leoa, apos a cessação de uma guerra civil plurianual, uma população crescente se dedicou à agricultura urbana para atender grande parte da demanda alimentícia.
Em Rizhao, China, um programa governamental viabilizou a instalação de aquecedores solares de água em 99% dos domicílios nos distritos centrais, enquanto a maioria dos semáforos e iluminação publica são alimentados por células solares, restringindo as emissões de carbono e poluição urbanas.
Em Bogotá, Colômbia, engenheiros aprimoraram o sistema pioneiro de transporte publico de Curitiba, no Brasil, criando o TransMilênio, ajudando não só a reduzir a poluição atmosférica e melhorar a qualidade de vida, como também inspirar projetos semelhantes na Europa, América do Norte e Ásia.

Mundialmente, as cidades também já levam o clima a serio, estando muitas reagindo efetivamente às ameaças diretas que sofrem. Das 33 cidades projetadas a terem, pelo menos, 8 milhões de habitantes ate 2015, 21 delas, no mínimo, são cidades litorâneas que terão que lidar com a elevação do nível do mar devido à mudança climática.

Nos Estados Unidos, mais de 300 cidades - com população total de mais de 51 milhões de americanos - aderiram ao Acordo de Proteção ao Clima realizado por governos municipais em prol de uma política climática nacional. Chicago, por exemplo, negociou com uma concessionária pública o fornecimento de 20% do consumo de energia da cidade por fontes renováveis, até 2010, e pretende se tornar "a cidade mais ambientalista da América". Para não ficar atrás, o Prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, recentemente anunciou planos para sua cidade ocupar a liderança na redução de emissões de gases de estufa.

Embora nenhum conjunto individual de "melhores práticas" permita que todas as cidades enfrentem com sucesso os desafios da pobreza e degradação ambiental, o Estado do Mundo 2007 enfoca áreas onde a liderança urbana pode gerar grandes benefícios para o planeta e para o desenvolvimento humano. Tais benefícios incluem a prestação de serviços de saneamento para populações urbanas pobres, incremento da agricultura urbana e melhoria dos transportes públicos. Alem disso, o relatório recomenda a aplicação de mais recursos à coleta de informação sobre questões urbanas, a fim de que entidades locais, nacionais e internacionais possam melhor avaliar prioridades desenvolvimentistas.

Um Mundo em Urbanização

No ultimo meio século, a população urbana mundial quase quadruplicou, de 732 milhões em 1950, para mais de 3,2 bilhões em 2006.

A África possui hoje 350 milhões de moradores urbanos, mais do que as populações conjuntas do Canadá e Estados Unidos. A Ásia e África deverão dobrar suas populações para cerca de 3,4 bilhões até 2030.

A maior parte do aumento populacional - 88% do crescimento entre 2000 e 2030 - será composta de moradores urbanos nos paises renda média e baixa.

Oferecendo Água Potável e Saneamento

Cerca da metade da população urbana na África e Ásia não dispõe de um fornecimento saudável de água e saneamento.

Um milhão ou mais de bebês e crianças morrem, anualmente, de doenças veiculadas pela
água e pela ausência de saneamento adequado.

Organizações comunitárias locais e grupos não-governamentais nas favelas de Mumbai e Pune, na Índia, projetaram, construíram e administram mais de 500 conjuntos de sanitários públicos mais seguros, mais limpos e mais baratos do que as instalações convencionais.

Cultivando as Cidades

Mundialmente, cerca de 800 milhões de pessoas estão envolvidas em agricultura urbana. Consumidores em regiões urbanas pagam 30% mais pela alimentação do que as populações rurais. Em alguns casos, citadinos pobres despendem 60-80% da sua renda em alimentação. Estudos demonstram que as pessoas em centros de abastecimento se conversam, se saúdam e interagem socialmente 10 vezes mais que as pessoas nos supermercados.

Mundialmente, 3,5 a 4,5 milhões de hectares de terra são irrigados com água servida, utilizada em mais da metade da produção de verduras e legumes urbanos em varias cidades asiáticas e africanas.

Verdeando o Transporte Urbano

Em média, o deslocamento urbano de carros particulares consome quase o dobro da energia do transporte público, 3,7 vezes mais do que o sistema metroviário e 6,6 vezes mais do que o transporte ferroviário elétrico.

No primeiro trimestre de 2006, o uso do transporte público nos Estados Unidos foi 4% superior ao do mesmo período no ano anterior.

Entre 2000 e 2005, através de um referendum sobre transportes, os eleitores em 33 estados americanos aprovaram 70% das medidas, gerando mais de US$70 milhões, grande parte dos quais destinados ao transporte de massa.

A poluição atmosférica sofreu uma queda de 39% em Deli, após todos os ônibus serem obrigados a utilizar gás natural comprimido (GNC) em conseqüência de um processo movido contra o Governo Indiano. Em 2006, cerca de 80.000 veículos movidos a GNC já estavam registrados em Deli, inclusive todos os ônibus e mini-táxis.

Energizando as Cidades

Quase um quinto do 1,6 bilhão de pessoas em todo o mundo sem acesso à eletricidade e a outros serviços modernos de energia, é formado por cidadãos urbanos. Globalmente, os prédios são responsáveis por mais de 40% do consumo total de energia. Hoje, a China é líder mundial na fabricação e uso de sistemas solares térmicos, com Xangai se destacando como um pólo de energia solar (p. 97). Cerca de 250.000 chineses trabalham na indústria solar.

Aproximadamente 650 prefeituras mundiais participam da Campanha pela Proteção Climática do ICLEI (sigla em inglês do Conselho para Iniciativas Ambientais Locais). Reduzindo Riscos de Desastres Naturais nas Cidades.

O numero de pessoas afetadas por desastres naturais deu um salto de uma média de 177 milhões no final dos anos 80, para 270 milhões anuais, a partir de 2001 - um aumento superior a 50%.

Oito das 10 cidades mais populosas do mundo estão construídas sobre, ou próximas a falhas geológicas sujeitas a terremotos, enquanto 6 entre as 10 são vulneráveis a maremotos. Mundialmente, o prejuízo econômico causado por desastres naturais poderia ter sido reduzido em US$ 280 bilhões nos anos 80, caso houvesse investimentos de aproximadamente US$ 40 bilhões em medidas preventivas.

Apenas 1 a 3% das residências em paises de renda média e baixa possuem seguro contra desastres naturais, comparado com 30% nos paises de renda alta.

Traçando Novos Caminhos para a Saúde Publica Urbana

Nos paises mais pobres, as áreas urbanas frequentemente vivem o pior de todos os mundos, pois as doenças infecciosas da pobreza absoluta e as chamadas "doenças da modernidade" impõem um duplo ônus.

A poluição atmosférica urbana ceifa cerca de 800.000 vidas anualmente, sendo metade delas na China.

A cada ano, acidentes no transito causam aproximadamente 1,2 milhão de mortos e outros 50 milhões de feridos.

Do Peru à Índia, os municípios melhoraram a saúde humana e ambiental dando mais atenção às opiniões de suas populações mais pobres.

Fortalecendo Economias Locais

A região Emilia Romagna, no norte da Itália, possui mais de 15.000 cooperativas que produzem mais de um terço do PIB regional.

Até o final de 2004, 3.164 instituições de micro-crédito haviam conquistado mais de 92 milhões de clientes, com quase 84% deles formado por mulheres.

Mundialmente, há mais de 157 milhões de membros de cooperativas de crédito em 92 paises. As vendas de produtos de Comércio Justo deram um salto de 56%, entre 1997 e 2004, para 125.596 toneladas.

Combatendo a Pobreza e Injustiça Ambiental nas Cidades

Durante décadas, governos vem se empenhando em limitar a urbanização e estancar o crescimento das cidades. Um estudo de 2005 em 164 paises revela que 70% deles têm como meta a contenção da migração de áreas rurais para urbanas.

Ao longo das duas últimas décadas, federações de populações urbanas pobres emergiram da Shack/Slum Dwellers International, organização de âmbito internacional agrupando federações de ação comunitária, que hoje atuam em mais de uma dúzia de países nas Américas, Ásia e África.

Orçamentos Participativos, criados originalmente em 1988 em Porto Alegre, Brasil, engajando as populações pobres no estabelecimento de orçamentos em nível comunitário, se expandiram para cerca de 200-250 municípios brasileiros em 2006, e estão sendo hoje adaptados mundialmente em centros urbanos.

Entre 2000 e 2006, o numero total de cidades com orçamentos participativos cresceu de 200 para cerca de 1.200).

 

No Brasil o WWI é associado à UMA-Universidade Livre da Mata Atlântica, e mantém Biblioteca Digital www.wwiuma.org.br, com publicações digitais disponíveis para download gratuito.

Fonte: WWI Worldwatch Institute
Site: www.wwiuma.org.br

 
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