Na década de 1980, o termo “Desenvolvimento Sustentável” surgiu como ponto de encontro teórico entre a necessidade de crescimento econômico, com a conseqüente geração de emprego e renda, e a urgência de se conservar os recursos naturais e a qualidade ambiental, reconhecidamente em situação crítica a nível planetário.

O referido conceito pode ser sintetizado da seguinte forma:
“Desenvolvimento Sustentável é aquele que é, simultaneamente, equilibrado do ponto de vista ecológico, justo do ponto de vista social e viável do ponto de vista econômico, e que permite atender as demandas das atuais populações e assegurar o atendimento as necessidades de futuras gerações”.

Para tanto, todo o modelo de desenvolvimento vigente deveria ser modificado, com novas políticas públicas, mecanismos de mercado inovadores, instrumentos de participação e decisão mais eficazes e uma grande mudança educacional, tecnológica e cultural.

Os principais avanços práticos nesta direção nas ultimas décadas se concentram nos campos das políticas e ações voltadas a conservação e recuperação dos ecossistemas. Pesquisas e monitoramento, criação de áreas protegidas, desenvolvimento da legislação, mecanismos de controle e fiscalização e educação ambiental, entre outras estratégias, tiveram um crescimento significativo em todo o mundo.

A questão ambiental tornou-se um novo e forte paradigma interferindo em ações locais, nacionais e internacionais.

É no campo da economia, no entanto, que se concentram em grande parte os problemas que levaram ao intenso processo de degradação sócio ambiental que tanto marcaram o século XX. É portanto nesse campo que são necessários as maiores adequações para que o desenvolvimento sustentável possa efetivamente ocorrer.

Muitas iniciativas tem ocorrido neste setor com o surgimento ou consolidação de atividades econômicas comprometidas com a sustentabilidade e a conseqüente alteração de políticas públicas e instrumentos de mercado. Dentre eles pode-se destacar o crescimento de atividades como o ecoturismo, a agricultura orgânica, a redução e reciclagem de resíduos, a valoração de serviços ambientais, etc.

Também pode-se citar, entre outros, a criação de mecanismos financeiros no campo dos incentivos fiscais, tributários e credíticios, a consolidação de associações de consumo sustentável, a promoção da responsabilidade social nas empresas, os mecanismos de licenciamento e compensação ambiental, os processos de certificação ambiental, o conceito de mercado justo, etc., que aos poucos vão reformulando os próprios fundamentos da economia.

As questões sócio ambiental vão deixando de ser consideradas “externalidades” e passam pouco a pouco a fazer parte do núcleo central da atividade econômica. Para discutir e promover essas mudanças a UNESCO através de seu Programa MAB (Homem e Biosfera) criou uma força tarefa composta por especialistas internacionais vinculados a Rede Mundial de Reservas da Biosfera. A Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, representada por seu presidente é membro dessa “Task Force on Quality Economies”.

Reservas da Biosfera são áreas reconhecidas pela UNESCO como de importância mundial para a conservação da biodiversidade e a promoção do desenvolvimento sustentável.

A Missão das Reservas da Biosfera é contribuir para o estabelecimento de uma relação harmônica entre as sociedades humanas e seu ambiente. Para tanto suas funções básicas são:

A conservação da biodiversidade e dos demais atributos naturais incluindo a paisagem e os recursos hídricos.
A valorização da sócio-diversidade e do patrimônio étnico e cultural a ela vinculados.
O fomento ao desenvolvimento econômico que seja social, cultural e ecologicamente sustentável.
O apoio a projetos demonstrativos, à produção e difusão do conhecimento, à educação ambiental e capacitação, à pesquisa científica e o monitoramento nos campos da conservação e do desenvolvimento sustentável.

Nas reuniões realizadas pela “Força Tarefa” identificaram-se pontos estratégicos a serem abordados de forma prioritária:

A necessidade de se difundir e discutir o conceito de Economia de Qualidade com os diversos seguimentos da sociedade especialmente governos, ONG’s, iniciativas privadas e produtos locais . Como forma de contribuir para a implementação do desenvolvimento sustentável.
Identificar experiências existosas e mecanismos, tradicionais ou inovadores, para a promoção de uma Economia de Qualidade, colaborando para o intercâmbio desses conhecimentos.
Fortalecer a função de “desenvolvimento” na criação e implementação das Reservas da Biosfera.
Discutir a eventual adoção, em escala regional ou mundial, de “selos de qualidade” para bens e serviços produzidos nas Reservas da Biosfera, que atendam a princípios, critérios e indicadores de origem, qualidade e sustentabilidade.
Apoiar as iniciativas que visem à produção e ao consumo sustentável a exemplo dos mecanismos de certificação, do comércio justo, uso de recursos renováveis e da reciclagem, entre outros.
Apoiar o desenvolvimento de “negócios sustentáveis” que promovam a geração de empregos e oportunidades de crescimentos e participação para as populações mais carentes ou marginalizadas.

Se por um lado somos forçados a reconhecer que a economia se globalizou e que os sistemas financeiros ganharam dinâmica própria em grande parte desconectados ou descompromissados tanto com o equilíbrio ambiental do Planeta, quanto com o atendimento das necessidades da grande maioria das populações humanas, por outro lado sabemos que é necessário e acreditamos que é possível mudar esse quadro. Para tanto é fundamental articular as ações locais e globais tendo como instrumentos básicos o conhecimento, a educação e à ética.

Assim, ao se lembrar o conceito de “Economia de Qualidade” como pressuposto para um verdadeiro desenvolvimento sustentável, o que se pretende é antes de mais nada atuar nos campos da consciência e da cultura. O que se pretende é valorizar a ética na economia e resgatar a noção de que a base conceitual e instrumental da economia deve ser buscada na ecologia.

Ou seja, para garantir nossa sobrevivência é necessário usar toda a nossa sabedoria para reaprender o que qualquer animal já sabe, por instinto.

Clayton F. Lino