
Aziz Nacib Ab'Sáber
ESPORÕES DA SERRA DO MAR, BAÍAS E ILHAS
COSTEIRAS
“Na
“costa de tipo atlântico” do litoral brasileiro,
existe toda uma geografia de ilhas desde o pequeno Arquipélago
do Bailique, no Amapá, até as ilhas e paleoilhas
de São Paulo e Santa Catarina, onde ocorrem agrupamentos
sincopados de ilhas e ilhotas de diferentes tipos, baías
de ingressão marinha, morretes emergentes na paisagem
original com densa cobertura vegetal tropical biodiversa.
Nos setores mais recortados do litoral sudeste-sul do Brasil
(Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina), há
que se destacar alternâncias entre setores de restingas
e elevações costeiras, designados “maciços
costeiros”, que certamente foram ilhas em diversos momentos
do Quaternário Superior.
No passado, setores dotados
de esporões de terrenos cristalinos que terminavam
por ilhas de diferentes tipos receberam o nome simbólico
de ilhas de desvinculação. Na época se
sabia muito pouco sobre os processos capazes de provocar desvinculação.
Entretanto, a arcaica designação geográfica
tem razão de ser. Hoje, sabe-se muito mais sobre a
história tectônica e fisiográfica da borda
do Planalto Atlântico no Brasil sudeste. Pode-se perceber
com nitidez o empenamento sofrido pelo platô cristalino
regional e restaurar parte da história fisiográfica
da região costeira, que se inclina ou mergulha para
o lado da plataforma continental adentro. Por um lado, observando-se
a rede hidrográfica que se interioriza em direção
à Bacia do Paraná –com rios que dão
costas ao mar-, percebe-se quanto empenamento assimétrico
aconteceu no Planalto Atlântico paulista logo após
a separação de Brasil e África.
Pelo
mar, a projeção descendente dos altos esporões
da Serra do Mar é suficiente para indicar a existência
de escarpas e falhas antigas que se escalonam até bacias
sedimentares subaquáticas cretáceas, ditas de
Campos e de Santos. A Serra do Mar, ela própria, na
Região Sudeste, é o último grande acidente
remanescentes da quebra tectônica pós-cretácea
que envergou massas de rocha antigas pré-cambrianas
(Complexo Brasileiro), de modo assimétrico para o interiro
do continente e de outra banda para a faixa costeira e plataforma
continental. Evidentemente, não é tão
simples falar do envergamento opósito e assimétrico
sem levar em conta certos episódios erosivos que aturam
a leste da Serra do Mar, gerando alguns topos de maciços
costeiros e maciços insulares.Somente após estes
aplainamentos, que estão registrados na cimeira das
Ilhas de São Vicente e Santo Amaro, é que se
atuar uma fase de flexura irregular dos esporões terminais
da serra, processo que cedeu lugar a entalhes fluviais múltiplos,
muitos dos quais forçados ou incentivados por períodos
de mar baixo. Foram tais entalhes feitos no modelo de erosão
fluvial regressiva que recortaram pontas de esporões
e maciços costeiros contribuindo para que, no otimo
climaticum, o mar ingressasse fundo em algumas reentrâncias.
Ou seja, o mar submergiu (ingressão marinha) muitos
vales ora estreitos, ora mais largos, de direção
paralela ou perpendicular em relação ás
massas rochosas pré-cambrianas constituídas
predominantemente por gnaisses e granitos. Após a ascensão
do nível das águas no período otimo climaticum,
entre 6.000 e 5.500 anos A . P (Pleistoceno Superior), os
mares atingiram até 3,20 metros acima do nível
atual , independentemente das amplitudes das marés
em diferentes pontas da costa. O caso do litoral paulista
reflete magnificamente a desvinculação dos esporões
costeiros e a formação de múltiplas baías
de ingressão marinha, como as restingas geradas entre
alguns esporões costeiros, remanescentes desse processo
geológicos e fisiográficos. Todos têm
idades diferentes, podendo ser estruturados em planícies
de restingas com dois ou três cordões de areia
facilmente identificáveis em cartas topográficas
(sobretudo na região de Cananéia-Iguape).O Estado
de São Paulo, onde há muitos anos vêm
sendo estudado os diferentes tipos de ilha continental, apresenta
estoque paisagístico e o geológico muito expressivo,
relacionado com a alternância de setores rochosos desvinculados
e setores arenosos de sucessivos cordões de areia relativamente
recentes .É notória que as planícies
de maré com manguezais – reveladoras de uma tropicalidade
marcante para a linha de costa- foram geradas durante o processo
de regressão dos mares após 5.500 A .P ., durante
um momento de forte argilificação com a formação
de lodaçais salinizados pela entrada das marés.
O abastecimento de argila saída das encostas da Serra
do Mar e seus esporões deu origem a planícies
de marés tropicais sustentadoras de manguezais nas
beiradas dos estuários, “largos” entre
ilhas rochosas e pequenas enseadas internas nos terraços
de construção marinha (caso da região
de Cananéia- Iguape e arredores da Baia de Trepandé
e Ilha do Cardoso). Nos vales mais estreitos e bem entalhados,
à margem de restingas sucessivas , o mar ingressou
de modo mais interiorizado, criando baías do tipo de
Trepandé e Paranaguá-Antonina. Por oposição
, entre a Ponta da Praia da Grande, o Maciço de Peruíbe
e o Grande Maciço da Juréia, predominam cordões
de areia, restingas separadas por baixadas ou lagunas, todos
apresentando terraços de construção marinha
com altitudes de 4 a 5 metros, sobretudo quando ocorrem cordões
rasos de dunas costeiras mantidas por vegetação
psamófila. Os mangues de margem de estuário
ou depressões entre o pé da serra e as ilhas
rochosas estão embutidos em nível inferior ao
dos terrenos arenosos, permanecendo expostos à entrada
e saída das marés. Daí porque na costa
paulista existe a representação de todos os
ecossistemas costeiros principais do litoral brasileiro: florestas
biodiversas da Serra do Mar e seus esporões, jundus,
manguezais, planícies aluviais em sopés de serras,
maciços costeiros e ilhas.”
Pág.31 - Litoral
do Brasil
Aziz Nacib Ab´Sáber
Warren Dean
A FERRO E FOGO - A HISTÓRIA
E A DEVASTAÇÃO DA MATA ATLÂNTICA BRASILEIRA
“Na costa leste da América
do sul, estendia-se outrora uma imensa floresta ou, mais precisamente
um complexo de tipos de florestas, em geral latifoliadas,
pluviais e de tropicais a subtropicais.Entre oito e 28°
de latitude sul, interiorizava-se a cerca de cem quilômetros
da costa no norte e alargava-se mais de quinhentos quilômetros
no sul.
No total, a floresta cobria
cerca de 1 milhão de quilômetros quadrados.Esse
complexo tem sido chamado de Mata Atlântica brasileira,
associado a outra muito maior, a Floresta Amazônica,
mas distinto dela. Em conjunto, as duas florestas formavam
uma zona biogeográfica diferente e mais rica em espécies
que as outras florestas tropicais do planeta, situadas na
África e no Sudeste Asiático. A Mata Atlântica
era em si mesma de uma diversidade extraordinária,
levando-se em conta seu tamanho relativamente modesto.E continha
um número impressionante de espécies endêmicas-
isto é, formas de vidas peculiares-ainda que partilhasse
com a Floresta Amazônica a mesma geomassa continental
e estivesse, durante longos períodos geológicos,
em contato parcial com ela.
A floresta ocorreu ao longo
dessa costa devido ao relevo, regimes de vento e correntes
oceânicas.Acompanhando sua extensão, a apenas
alguns quilômetros rumo ao interior, ergue-se uma paliçada
imponente, quase contínua, em alguns pontos aproximando-se
dos mil metros de altura. No centro e sul da costa , atrás
dessa primeira parece e em disposição mais ou
menos paralela, avultam cadeias de montanhas ainda mais altas,
conseqüência de ressurgência de placa ocorridas
há mais de cem milhões de anos, que adicionam
nada menos que mil metros de altitude ao perfil costeiro.Contra
essas barreiras sopra, na maior parte do ano, um constante
vento alíseo de leste, carregado de umidade do morno
mar equatorial.À medida que a corrente de ar se eleva,
esfria-se a libera sua umidade como chuva, num total de cerca
de 1.500 milímetros por ano.No inverno do hemisfério
sul, contudo, as chuvas se reduzem sob pressão da fria
corrente de Falkland no sentido norte ao longo da costa. As
faces orientais dessas cadeias montanhosas recebem elevada
precipitação- mais de 4 mil milímetros
por ano em alguns pontos do litoral.No interior, a umidade
das nuvens diminui abruptamente e a chuva se torna mais sazonal....”
“À
medida que a floresta sobe o paredão litorâneo,
torna-se visivelmente menos luxuriante.Ali o solo é
mais fino e os sopés propiciam acesso mais fácil
à luz do sol e, conseqüentemente, menos competição.
Dessa forma, as árvores são menores, seus troncos
mais finos e , nos sopés mais escarpados um ou dois
dos sub-bosques estão ausentes.Acima dessa formação
montana um tanto distinta, ao long da paliçada costeira,
nos poucos locais onde a ressurgência dos ventos terrais
era constante e brupta, formou-se o que foi chamado de “floresta
de nuvens”.Nos solos encharcados, finos e ácidos
dessas cristas, as árvores são anãs e
seus galhos nodosos carregados com uma profusão de
orquídeas e bromélias que retiram sustento das
próprias névoas úmidas cheias de nutrientes.Musgos,
liquens e hepáticas são ainda mais favorecidos-
revestem os galhos e tronos de um verde-esmeralda. O efeito-
a cintilação das gotículas de orvalho
e a imersão em névoa- é totalmente extraterrestre.Nas
maiores elevações- onde os ventos dispersam
a névoa, a umidade rapidamente verte dos solos e as
noites de inverno são inclementes e muitas vezes congelantes-
a faixa das árvores eventualmente desaparece e surge
uma flora montana, chamada campo rupestre, composta de ervas
endêmicas peculiares, carriços e forrageiras,
na maior parte da famílias das Velosiáceas.Algumas
dessas últimas ainda podem ser vistas agarradas aos
flancos das impressionantes florações graníticas
que salpicam as baixadas, das quais duas- o Pão de
Açúcar e o Corcovado- têm sido fotografadas
por milhões de turistas admirados.”
Warren Dean
A Ferro e Fogo -A história e a devastação
da Mata Atlântica brasileira
pg.24 a 26 |