Carlos Renato FernandesA fauna da Ecorregião Serra do Mar é muito diversificada e, por estar inserida na porção mais desenvolvida e ocupada do território brasileiro, relativamente bem conhecida. Para se ter uma idéia de sua diversidade, a ecorregião abriga 8 espécies de primatas, 75 espécies de serpentes, mais de 500 espécies de aves e mais de 1.000 espécies de borboletas. Como acontece com a flora, muitas espécies de animais da Ecorregião Serra do Mar são compartilhadas com ecorregiões vizinhas, principalmente a Ecorregião Florestas do Alto Paraná e a Ecorregião das Florestas Costeiras da Bahia.

Os endemismos entre a fauna seguem padrão semelhante ao da flora. Ou seja, não existem espécies exclusivas da Ecorregião Serra do Mar, mas sim espécies cuja principal área de distribuição se sobrepõe àquela da ecorregião e espécies de distribuição restrita, endêmicas de uma parte da ecorregião. Os primatas constituem um bom exemplo: 3 das 8 espécies – Callithrix aurita, Cebus apella nigritus e Alouatta fusca clamitans - têm a maior parte da distribuição concentrada na floresta ombrofila densa, mas ocorrem também em áreas de floresta ombrófila mista e floresta estacional semidecidual, que fazem parte de ecorregiões vizinhas, enquanto 2 outras espécies – Leontopithecus caiçara e L. rosalia - são endêmicos de partes distintas da Ecorregião Serra do Mar. Os demais endemismos que se destacam entre as espécies de mamíferos são diversos gêneros de roedores – Delomys, Rhagomys, Phaenomys, Nelomys (3 das 6 espécies), Kannabateomys –, alguns dos quais bastante raros, que só foram redescobertos durante a década de 90.

Além da questão dos endemismos, deve-se considerar o problema das espécies de distribuição mais ampla ameaçadas de extinção. Os grandes fragmentos florestais da Ecorregião Serra do Mar representam os últimos refúgios para espécies antes distribuídas pela maior parte da Mata Atlântica, como a jacutinga (Pipile jacutinga), que foi exterminada pela caça em grande parte de sua área de distribuição. Outras espécies de animais e plantas que ocorriam ao longo da costa brasileira, como o mono-carvoeiro (Brachyteles aracnoides), tiveram suas populações muito reduzidas e fragmentadas em Minas Gerais, Espírito Santo e estados do nordeste, mas ainda se mantêm em número razoável no complexo da Serra do Mar. No entanto, apesar do tamanho dos remanescentes florestais da Ecorregião Serra do Mar, certas espécies de animais de grande porte e requerimentos ambientais complexos, como a onça-pintada (Panthera onca), a queixada (Tayassu pecari) e a harpia (Harpia harpija) são nela muito raros, tendo sido registrados umas poucas vezes ao longo das últimas 3 décadas. Embora esteja presente no Complexo P.E.T.A.R./Carlos Botelho/Intervales, a onça-pintada não tem registro recente documentado no Parque Estadual da Serra do Mar, a maior unidade de conservação da região, enquanto a harpia não teve presença recente confirmada em nenhuma parte da ecorregião. Já a queixada é muitíssimo rara, mesmo nas duas grandes unidades de conservação citadas. Os motivos para a raridade ou ausência dessas espécies em áreas tão grandes não são claros, já que elas ocorrem em fragmentos bem menores (por exemplo no Alto Paraná). Fatores históricos, como a caça persistente, combinados com aspectos naturais (menor produtividade dessa floresta em relação àquelas estacionais semideciduais) podem fornecer uma hipótese explicativa. Outras espécies de grande porte e requerimentos complexos – anta (Tapirus terrestris), cateto (Tayassu tajacu), jaguatirica (Leopardus pardalis), suçuarana (Puma concolor), gaviões-pega-macaco (gêneros Spizaetus, Spizastur) e gaviões-pomba (Leucopternis spp) – são freqüentes nos grandes fragmentos florestais da ecorregião.

AVES

Carlos Renato FernandesA Mata Atlântica têm cerca de 200 espécies de aves endêmicas, muitas das quais de distribuição ampla ao longo da costa brasileira, ocorrendo desde o sul do Estado da Bahia até o norte do Rio Grande do Sul, seguindo pelo interior do Paraná até a região de Misiones na Argentina. Aproximadamente 30 espécies são endêmicas, ou preponderantemente distribuídas na Ecorregião Serra do Mar, sendo algumas de ocorrência bastante restrita. Destacam-se duas espécies de psitacídeos – sabiá-cica (Triclaria malachitae) e papagaio-do-mangue (Amazona brasiliensis) -, cotingídeos de florestas de altitude (Carpornis cucullatus, Tijuca condita, T. atra e Caliptura cristata), alguns tangarás (Dacnis nigripes, Thraupis cyanoptera e Tangara desmaresti) e uma série de papa-moscas (ex. Mionectes rufiventris Phylloscartes kronei P. difficilis Hemitriccus furcatus H. kaempferi H. orbitatus) e formicarídeos (ex. Drymophila rubricollis, D. genei, Drymophila ochropyga, Dysithamnus xanthopterus, Formicivora erythronotos, Stymphalornis acutirostris, Myrmotherula unicolor, M. fluminensis, M.minor, M. gularis). É interessante notar que, ao longo das serras dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro (e também Espírito Santo), a riqueza de espécies de aves florestais diminui das baixadas para as regiões de maior altitude, enquanto a porcentagem de espécies endêmicas da Mata Atlântica aumenta no mesmo sentido até se constituir em cerca de metade da avifauna das florestas de altitude, acima de 1200m.

RÉPTEISFabrício Lameu

Cerca de 20 espécies de serpentes são endêmicas da Ecorregião Serra do Mar, com destaque para as jararacas insulares – Bothrops sp.nov e B. insularis –, espécies de matas de altitude – Bothrops fonsecai, Gomesophis brasiliensis, Liophis atraventer, Tropidodryas striaticeps, Pseudoboa serrana e Micrurus decoratus – e a jibóia Corallus cropani, extremamente rara. Além das cobras, quelônios do gênero Hydromedusa – H. maximiliani e H. tectifera - ocorrem nos riachos de corredeira em áreas serranas do sudeste e sul, e o lagarto Placosoma glabelum (Gymnophtalmidae) ocorre associado a bromélias da floresta ombrófila densa submontana. Outros lagartos - Liolaemus lutzae e Mabouya caissara – ocorrem associados aos ambientes costeiros da ecorregião, enquanto os estuários da ecorregião abrigam as maiores populações do jacaré-de-papo amarelo (Caiman latirostris), ameaçado de extinção.

ANFÍBIOS

Carlos Renato FernandesAs espécies de anfíbios mais características, muito diversificadas na ecorregião, estão associadas aos riachos de corredeira. Pelo menos um gênero de hilídeo (Phasmahyla) e vários gêneros de lepitodactilídeos (Cycloramphus, Crossodactylus, Hylodes e Megaelosia) formam grupos de espécies alopátricas distribuídos pelas diferentes cadeias montanhosas do complexo da Serra do Mar e vizinhança. Além disso, devem ser consideradas a família Brachycephalidae, endêmica desta formação, as pererecas do gênero Fritziana, associadas a bambus ou bromélias, e uma série de espécies de distribuição restrita, tais como Aparasphenodon bokermanni, Hyla izecksohni, Hyla clepsydra, Phrynomedusa spp, Scinax jureia (Hylidae), Cycloramphus juimirin, Hylodes sazimai, Megaelosia bocainensis, M. lutzae, M. massarti, Odontophrynus moratoi, Melanophryniscus moreirae e o gênero Paratelmatobius (Leptodactylidae). Por fim, cabe lembrar que as condições físicas e históricas da região favorecem a diversificação do grupo e novas espécies de anfíbios vêm sendo descritas freqüentemente.

INVERTEBRADOS

Clayton F. LinoA fauna de invertebrados das florestas ombrófilas densas é muito rica e a Serra do Mar não foge à regra. Milhares de espécies de insetos foram encontradas na região e muitas outras ainda estão por ser descritas ou mesmo encontradas. Várias borboletas endêmicas e ameaçadas de extinção são características das restingas, florestas montanas e campos de altitude da ecorregião: Actinote quadra, A. zikani, Arawacus aethesa, Callicore hydarnis, Cyanophris berta, Dasyophtalma delanira, D. geraensis, Drephalys mourei, D. miersi, Eucorna sanarita, H. leptalina leptalina, Heraclides himeros himeros, Hypoleria fallens, Mesenops albivitta, Mimoides lysithous harrisianus, Mycastor leucarpis, Nirodia alphegor, Orobrassolis ornamentalis, Panara ovifera, Parides ascanius, P. bunichus chamissonia, Parides a. ascanius, Polygrapha suprema, Prepona deiphile e Tithorea harmonia caissara.
(fonte: Eduardo Accaccio/WWF-Brasil)