As atividades extrativistas são, em grande parte, exercidas pelos pequenos produtores rurais e comunidades conhecidas como tradicionais, pois têm seu modo de'vida, em grande parte, associado ao uso e manejo dos recursos naturais exercidos ao longo de sua permanência histórica na Mata Atlântica e ecossistemas associados, que incluem mangues, restingas e zonas costeiras. Dentre esses grupos culturais - alguns totalmente inseridos na Mata Atlântica, outros apenas parcial ou tangencialmente a esse Domínio -, destacam-se os seguintes:

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Caiçara

Entende,se por caiçaras aquelas comunidades formadas pela mescla da Çontribuição étnico, cultural dos indígenas, dos colonizadores portugueses e, em menor grau, dos escravos africanos. Os caiçaras apresentam uma forma de vida baseada em atividades de agricultura itinerante, da pequena pesca, do extrativismo vegetal e do artesanato. Essa cultura desenvolveu-se principalmente nas áreas costeiras dos atuais estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e norte de Santa Catarina. Alguns autores2 consideram que as comunidades caiçaras se formaram nos interstícios dos grandes ciclos econômicos do período colonial, fortalecendo-se quando essas atividades voltadas para a exportação entraram em declínio. A decadência dessas atividades; principalmente as agrícolas, incentivou as atividades de pesca e coleta em ambientes aquáticos, principalmente os de água salobra, como estuários e lagunas. No interior desse espaço caiçara surgiram cidades como Parati, Santos, São Vicente, Iguape, Ubatuba, Ilhabela, São Sebastião, Antonina, Paranagúá, que em vários momentos da história colonial funcionaram como importantes centros exportadores. As comunidades caiçaras sempre mantiveram com essas cidades, em maior ou menor intensidade, contatos e intercâmbio econômico e social, também dependendo delas pala o aprovisionamento de bens não produzidos nos sítios e nas praias. Esse contato se manteve por vias terrestre (caminhos), fluvial e marítima, tendo-se destacado, do século XIX até as primeiras décadas do século XX, as chamadas canoas de voga, onde se transportavam produtos agrícolas, peixe seco, aguardente etc.

A maioria desses centros e áreas rurais litorâneas correspondentes entrou em decadência no final do século XIX, principalmente com o fim da escravatura, levando ao declínio determinadas atividades agrícolas de exportação, como o arroz. As comunidades caiçaras mantiveram sua forma tradicional, de vida até a década de 1950, quando as primeiras estradas de rodagem interligaram as áreas litorâneas com o planalto, ocasionando o início do fluxo migratório.

As comunidades caiçaras passaram a chamar a atenção de pesquisadores e de órgãos governamentais mais recentemente em virtude das ameaças cada vez maiores à sua sobrevivência material e cultural e pela, contribuição histórica que essas populações têm dado à conservação da biodiversidade, por meio do conhecimento sobre a fauna e a flora e os sistemas tradicionais de manejo dos recursos naturais de que dispõem.

Essas comunidades encontram-se hoje ameaçadas em sua sobrevivência física e material por uma série de processos e fatores.

Uma das ameaças a essas comunidades e ao exercício de suas atividades tradicionais provém do avanço da especulação imobiliária, iniciada já nas décadas de 1950 e 1960, sobretudo com a construção de residências secundárias ao longo do litoral. A especulação imobiliária privou uma grande parte dos caiçaras de suas posses nas praias, obrigando-os tanto a trabalhar como caseiros, pedreiros, quanto a mudar suas casas para longe de seu lugar de trabalho, dificultando as atividades pesqueiras. Além disso, o turismo de massa, sobretudo no litoral norte do estado de São Paulo, contribui para a desorganização das atividades tradicionais, criando uma nova estação ou safra nos meses do verão, quando muitos caiçaras se transformam em prestadores de serviços.

Outro processo responsável pela desorganização da cultura caiçara é o fato de uma grande parte de seu território ter se transformado em áreas naturais protegidas. Essa transformação de seu espaço de reprodução material e social em parques e reservas naturais resultou em graves limitações a suas atividades tradicionais de agricultura itinerante, caça, pesca e extrativismo, contribuindo para a emergência de conflitos com os administradores dessas unidades de conservação e para uma migração ainda maior para as áreas urbanas, onde os caiçaras expulsos de seus territórios passaram a viver em verdadeiras favelas e fadados ao desemprego e subemprego.

Apesar das restrições ambientais e do reduzido acesso às áreas de extrativismo, as comunidades caiçaras ainda hoje são dependentes dessa atividade, exercida tanto na mata quanto nos estuários e no mar.

Um estudo realizado pelo Núcleo de Pesquisa sobre Populações Humanas e Áreas Úmidas Brasileiras (Nupaub)3 mostra que, dos trabalhos publicados sobre caiçaras, de um total de 104, cerca de 63,5% indicam ser o extrativismo uma atividade realizada por essa população tradicional. Além disso, cerca de 23% dos trabalhos indicam a importância das ervas medicinais nessa cultura. O extrativismo caiçara se dá, de um lado, no mar, em restingas e estuários e está associado à pesca e à coleta de crustáceos e moluscos, e, de outro lado, na mata. Nesta última, um grande número de espécies de árvores, arbustos, flores, frutos, cipós e frutas é utilizado para uso tanto doméstico quanto comercial. Com os recursos florestais são fabricados equipamentos de pesca, instrumentos de lida na lavoura, de uso doméstico e artesanato, este último para venda. Alguns desses equipamentos e instrumentos são fabricados pelos homens, ao passo que outros itens, que incluem cestarias, cerâmicas, remédios caseiros, são, em grande parte, responsabilidade feminina.

Os jangadeiros

Os jangadeiros são, essencialmente, pescadores marítimos que habitam a faixa costeira situada entre o Ceará e o sul da Bahia, pescando com jangadas. Para efeito deste relatório, apesar dessa área geográfico, cultural, chamada por Maynard de jangada em oposição à área litorânea sulina, chamada por ele de ubá (canoa de um tronco só), muitos dos trabalhos coletados e analisados se referem à pesca com canoas, nos estuários dessa região, ou com botes, que muitas vezes sucederam as jangadas, sobretudo a partir dos anos 1950 no Nordeste.

Apesar de a jangada ser utilizada pelos índios brasileiros (chamada peri-peri), a embarcação que hoje conhecemos, utilizando vela e leme para a pesca em alto-mar, foi fruto de várias adaptações introduzidas pelos europeus e pelos africanos. Já no início do século XVI existem registros de que essas embarcações eram utilizadas para a pesca pelos escravos africanos na capitania de Pernambuco.4 Até a década de 1950 havia no Nordeste um número maior de jangadas do que botes e lanchas a motor, mas a partir dessa década o número de jangadas e de jangadeiros começou a diminuir principalmente em virtude da dificuldade em se encontrar o pau-de-balsa (piúba) de que eram feitas jangadas. Nas décadas de 1910 e 1980 começam a surgir as jangadas feitas de tábua, que passam a substituir gradativamente as de pau. Hoje pode-se constatar que somente em alguns lugares, como no sul da Bahia, onde ainda se encontram áreas de mata nativa, encontra-se o pau-de-jangada.

Os jangadeiros utilizam as jangadas de alto para pesca em alto-mar, ao passo que os paquetes e botes, pequenas jangadas, servem para a pesca costeira e estuarina.

Esses pescadores detêm um grande conhecimento da arte de navegação e identificação dos locais de pesca situados longe da costa pelo sistema de triangulação pelo qual linhas imaginárias são traçadas a partir de acidentes geográficos situados no continente. Também os vários ambientes pesqueiros são definidos a partir de determinadas características ecológicas e nomeados localmente como tassos, corubas, altos e rasos, segundo a profundidade em que se situam as rochas onde se pesca com linha de mão. Os jangadeiros têm demonstrado um grande conhecimento da diversidade das espécies de pescado que capturam, conhecendo a sazonalidade, os hábitos migratórios e alimentares de um grande número de peixes, sobretudo os de fundo.

Essas comunidades de jangadeiros ainda são importantes em certas áreas, como o litoral do Ceará, onde pescam principalmente a lagosta, e na costa do Rio Grande do Norte, onde, além da lagosta, pescam outros peixes com a ajuda de redes.

As comunidades de jangadeiros sofrem hoje a concorrência dos pescadores de botes motorizados e também os impactos do turismo, principalmente o de residência secundária.

Em estados como o Ceará, mas de forma geral nos demais estados nordestinos, os jangadeiros vêm perdendo o acesso às praias, uma vez que suas posses nesses locais estão sendo compradas ou expropriadas pelos veranistas que aí constroem suas residências secundárias.

As atividades em terra são menos importantes que a pesca para comunidades de pescadores marítimos. No entanto, extraem dos coqueiros uma fonte complementar de renda, realizando também, algumas vezes, roças de mandioca, da qual extraem a farinha.

O extrativismo baseia-se principalmente nas espécies de palmeiras das quais se retiram fibras para confecção de instrumentos de lida, tanto pesca quanto na vida doméstica. O artesanato voltado para a venda é uma atividade principalmente feminina, baseado não só em cestaria, mas também em bordados.

No estudo de Diegues e Arruda constata-se que somente 24,4% dos trabalhos sobre jangadeiros mencionam atividades extrativistas fora da pesca e 11% citam o uso de ervas medicinais.

Os caipiras

Os caipiras são, hoje, em grande parte sitiantes, meeiros e parceiros que sobrevivem precariamente em nichos entre as monoculturas do Sudeste e Centro-Oeste, em pequenas propriedades em que desenvolvem atividades agrícolas e de pequena pecuária, cuja produção se dirige para a subsistência familiar e para o mercado.

Para Darci Ribeiro, a área cultural caipira é um modo de vida que se difunde paulatinamente a partir das antigas áreas de mineração e dos núcleos de produção artesanal e de mantimentos que a supriam de manufaturas, de animais de serviço e outros bens. Esparramou-se, ainda segundo Darci Ribeiro, por toda a área florestal e campos naturais do centro-sul do país, desde São Paulo, Espírito Santo e estado do Rio de Janeiro, na costa, até Minas Gerais e Mato Grosso. O único recurso com que conta essa economia decadente é a vasta mão-de-obra desocupada e terras virgens despovoadas e sem valor. Com essa base, instala-se uma economia natural de subsistência, dado que a comercialização era limitada. Difunde-se, desse modo, uma agricultura itinerante, a derrubar e queimar novas glebas de mata para a roça, combinada com a caça, e coleta. Dada a dispersão do povoamento, há de um lado a existência de famílias vivendo isoladas e, de outro, alguns bairros rurais.

Essas populações desenvolvem formas de convívio e ajuda mútua nas atividades agrícolas, bem como formas de religiosidade peculiares, em torno de capelas e igrejas, onde em domingos e feriados é reverenciado o santo padroeiro.

Esse mundo caipira é desarticulado pelo advento da monocultura café e cana, no centro-sul, e pelas fazendas de gado, assim como pela urbanização crescente e pela luta e grilagem das terras. A pequena propriedade caipira acabou, em grande parte, sendo incorporada pela grande propriedade, e somente conseguiu subsistir em nichos onde a mecanização agrícola não pôde avançar, como nas áreas montanhosas da Mata Atlântica e da serra do Mar. Em Digues e Arruda, cerca de 62% das publicações pesquisadas sobre caipiras revelam a existência do extrativismo, ao lado das atividades agrícolas e artesanais, apesar da redução constante da área florestada nas pequenas propriedades rurais. Cerca de 31% desses trabalhos falam do uso de ervas medicinais pelos caipiras.

Os açorianos

São descendentes dos imigrantes açorianos e também dos madeirenses e portugueses continentais, que se estabeleceram no litoral catarinense e rio-grandense a partir de meados do século XVIII, guardando traços culturais próprios, fruto da miscigenação com negros e índios. Esses colonos eram agricultores e pescadores em seus lugares de origem e, quando se fixaram no litoral sul do Brasil, também passaram a combinar a agricultura com a pesca. Segundo Franklin Cascaes, os açorianos começaram a pescar tainha entre maio e agosto, quando abandonavam suas atividades agrícolas para se dedicar à pesca. Como grande parte deles vivia isolada, de início garantiu sua subsistência emprestando técnicas e espécies cultivadas dos indígenas, como a mandioca. O óleo para iluminação era retirado de peixes e baleias. As igrejas eram o ponto de encontro, para onde iam aos domingos, usando carroças e carros de boi.

Na pesca, ainda no século XVIII, eles se dedicaram à captura da baleia, com uma embarcação chamada baleeira, que se tomou fundamental também para os outros tipos de pesca realizados até hoje.

Essa situação começou a se alterar na metade do século XX com a expansão urbana de Florianópolis e da orla marítima entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A partir desse momento começou uma especialização nas atividades pesqueiras, em detrimento da agricultura, apesar de que, até recentemente, na maioria das vezes, os açorianos exerciam conjuntamente a pesca e a lavoura. Esta última é o domínio do trabalho da mulher, principalmente no preparo da farinha de mandioca, e a pesca é domínio masculino.

Os pescadores de origem açoriana ficaram conhecidos como excelentes profissionais da pesca, migrando sazonalmente entre o Rio Grande do Sul e São Paulo, onde eram conhecidos como pescadores-andorinhas.

Muitas artes de pesca novas foram introduzidas por esses pescadores nos locais para onde migravam em suas campanhas. A partir de 1970, a indústria de pesca ganhou grande impulso em Santa Catarina, com a política de incentivos fiscais. No entanto, em menos de dez anos fizeram-se sentir os sinais da sobrepesca e algumas dessas empresas catarinenses migraram para outros lugares, como o litoral norte amazônico, levando seus barcos e pescadores. No litoral catarinense ficaram sobretudo as comunidades de açorianos que se dedicam à pequena pesca, e mais recentemente ao cultivo de mexilhão.

As décadas de 1970 e 1980 também trouxeram outras mudanças importantes no litoral catarinense, com a introdução do turismo e das residências secundárias. Muitos desses pescadores, como resultado da expansão urbana e da diminuição dos estoques, transferiram-se para setor de serviços, atendendo ao grande contingente de turistas nacionais e estrangeiros que passam a temporada de verão no litoral catarinense e rio-grandense.

Em Diegues e Arruda, cerca de 40% das publicações revelam que os açorianos praticam o extrativismo.

Varjeiros (ribeirinhos não amazônicos)

Varjeiros ou varzeiros são consideradas aquelas populações tradicionais que vivem às margens dos rios e várzeas, sobretudo às margens do rio São Francisco. Essa denominação é também aplicada a ribeirinhos e caboclos de outros rios, como o Paraná.
O Rio São Francisco e sua gente forma descritos já por Saint-Hilaire, no início do século XIX e por Spix e Martius, também nesse período.

O livro clássico sobre os varjeiros do São Francisco é o de Donald Pierson, em que descreve o modo de vida dos varjeiros, que combinava as atividades agrícolas (principalmente o plantio do arroz), extrativistas da mata (de onde retiravam mel, ervas medicinais e madeira para as célebres canoas - ubás - e barcas, movidas a remo e a vela) e também as àtividades de pesca, pecuária e cerâmica. Anterior ao trabalho de Pierson, é necessário citar a obra de Von Ihering, que na década de 1930 percorreu o rio São Francisco, e descreve sobretudo as atividades pesqueiras.

Em 1978, Mangabeira Unger escreveu Sertão do Velho Chico. Em 1991, Zanoni Neves apresentou sua dissertação de mestrado, em que descreve a herança social dos remeiros e lameiros que navegavam com as canoas e barcas, bem como o conhecimento que tinham do rio e de seus recursos naturais.

Outro conjunto de trabalhos diz respeito aos varjeiros do Baixo São Francisco, próximo à foz do rio. Esses trabalhos abordam as transformações por que passa o rio, depois da construção das hidrelétricas e seu impacto sobre o modo de vida dos varjeiros. Tania Elias Alves enfoca as tlansformações em duas comunidades de varjeiros a partir das alterações no regime hídrico, do avanço da cana-de-açúcar e do arroz irrigado implantado pela Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf) em áreas vizinhas. José Geraldo Marques faz uma análise do conhecimento dos varjeiros da Marituba sobre os recursos naturais dentro da perspectiva da etnoictiologia e da etnobotânica.

No entanto, os caboclos ribeirinhos existem em øutras áreas do Brasil, como o rio Ribeira de Iguape, o Paraná, o Tietê e outros, mais diretamente incluídos no Domínio da Mata Atlântica.

Em Diegues e Arruda, constata-se que cerca de 40,0% dos trabalhos sobre essa população revelam a existência de atividades extrativistas e que 35,5% indicam o conhecimento e o uso de ervas medicinais.

Os quilombolas

Os quilombolas são descendentes dos escravos negros que sobrevivem em enclaves comunitários, muitas vezes antigas fazendas deixadas pelos antigos grandes proprietários. Apesar de existirem, sobretudo após o fim da escravatura, no final do século XIX, sua visibilidade social é recente, fruto da luta pela terra, da qual, em geral, não possuem escritura. A Constituição de 1988 garantiu seu direito sobre a terra da qual vivem, em geral de atividades vinculadas à pequena agricultura, ao artesanato, ao extrativismo e à pesca, segundo as várias regiões em que se situam. Assim os quilombos da Amazônia, muitas vezes situados ao longo dos rios e igarapés, garantem sua subsistência com a pequena pesca, o extrativismo e a pequena agricultura. Em outras regiões, as atividades são quase exclusivamente agrícolas.

Apesar de alguns trabalhos de pesquisa terem sido feitos antes da década de 1980, a maioria deles é mais recente e surgem no bojo da luta pela afirmação dos quilombolas como um grupo que apresenta uma cultura e uma história particulares, marcadas pela influência negra não só nas atividades agrícolas como também nas religiosas.
Em Diegues e Arruda, constata-se que cerca de 72,0% dos trabalhos analisados revelam a prática do extrativismo pelos quilombolas e 22,2% indicam também o conhecimento e uso de ervas medicinais.

Os pescadores

Essa categoria de população tradicional está espalhada pelo litoral, pelos rios e lagos e tem um modo de vida baseado principalmente na pesca, ainda que exerça outras atividades econômicas complementares, como o extrativismo vegetal, o artesanato e à pequena agricultura. Apesar de poderem, sob alguns aspectos, ser considerados uma categoria ocupacional, os pescadores, particularmente os chamados artesanais, apresentam um modo de vida particular, sobretudo aqueles que vivem das atividades pesqueiras marítimas. Freqüentemente, mesmo alguns grupos como os jangadeiros e praieiros identificam-se primordialmente como pescadores. Alguns deles, mesmo vivendo em espaços e lugares definidos neste trabalho como os de jangadeiros e caiçaras, são classificados como pescadores. Por exemplo, mesmo na região costeira, onde historicamente se concentraram os jangadeiros, existem pescadores que não utilizam jangada e sim canoas em estuários, lagunas e rios. Nesse caso, foram classificados com o termo mais genérico de jangadeiros. O mesmo se aplica aos que utilizam os botes - embarcações que freqüentemente substituíram as jangadas - no Nordeste.

No trabalho de Diegues e Arruda, consta que, dos trabalhos analisados, cerca de 25,8% deles revelam a existência do extrativismo, além das atividades pesqueiras.

Os sitiantes

À semelhança da categoria dos pescadores, a dos sitiantes é bastante ampla, cobrindo aquelas populações que, apesar de basearem seu de vida na agricultura, desempenham também outras atividades complementares, como a pesca, o artesanato, o trabalho assalariado. Podem ser considerados pequenos produtores rurais, morando em pequenas propriedades rurais - os sítios -, nos interstícios da grande propriedade ou em bairros rurais, como aqueles descritos por Maria Isaura P. de Queiroz, no caso paulista.

Em algumas regiões eles se confundem com os caipiras ou caboclos.

Em alguns estudos essas populações aparecem como caboclos-sitiantes ou sitiantes-caipiras, ou ainda pescadores-sitiantes. Ainda que muitos deles dediquem parte de sua produção, sobretudo a agrícola e a da pequena pecuária, para o consumo familiar, eles estão também intimamente vinculados ao mercado, para o qual dirigem parte importante de sua produção. São também dependentes de fragmentos de mata, quando existe em sua propriedade, para a retirada do mel, de ervas medicinais, cipós e fibras para o artesanato, barro para a cerâmica etc.

A mão-de-obra dos sítios é principalmente familiar, apesar de, em alguns momentos do ciclo agrícola, utilizarem alguma força de trabalho assalariada ou, ainda, em alguns poucos casos, cada vez mais raros, a cooperação dos vizinhos, por meio do mutirão. Nessa categoria, muitas vezes também podem ser incluídos os posseiros e meeiros.

Em Diegues e Arruda, cerca de 50,0%, das publicações indicam o extrativismo como atividade complementar no modo de vida dos sitiantes e que 35,7% deles possuem o conhecimento e fazem uso de ervas medicinais.

As populações tradicionais indígenas da Mata Atlântica

Entre os principais grupos indígenas residentes no Domínio da Mata Atlântica podem-se citar: Guarani (MS/ SP/ RJ/ PR/ ES/ SC/ RS/ Paraguai), Kaingang (SP/ PR/ SC/ RS), Xocleng (SC), Pataxó (BA), Tupiniquim (ES), Krenak e Terena (MS).

Texto e Mapa: Antônio Carlos Diegues in Simões L e Lino C.F. (Orgs) - Sustentável Mata Atlântica