Clayton F. LinoEmbora menos conhecida internacionalmente que a Amazônia, e formando com ela as duas maiores e mais importantes florestas tropicais do continente Sul-Americano, a Mata Atlântica é a floresta-mãe da Nação Brasileira. Nos domínios desse bioma começou a História do país e nessa área vivem hoje cerca de 120 milhões de habitantes, em milhares de cidades. Aqui concentra grande parte dos maiores pólos industriais, químicos, petroleiros, portuários e turísticos do Brasil.

À época da chegada dos portugueses, em 1500, essa floresta se estendia contínua por mais de 1.300.000 km2 , área duas vezes maior que a França, o que correspondente a cerca de 15% do atual território brasileiro. Esta exuberante floresta, desenvolvia-se por quase toda a costa atlântica, com uma faixa de largura variável, chegando na Região Sudeste a avançar pelo interior, atravessando as atuais fronteiras com o Paraguai e a Argentina, na área onde situam-se as fantásticas Cataratas do Iguaçu, consideradas Patrimônio da Humanidade.

Na Mata Atlântica iniciou-se o primeiro ciclo econômico da colonização, com a exploração do pau-brasil, uma essência tinturial, vermelha cor-de-brasa, que deu nome à terra, tornando o Brasil o único país do mundo a ter o nome de uma árvore. Essa madeira preciosa serviu também na construção das naus e na reconstrução de Lisboa depois do terremoto que a destruiu quase por completo, no século XVIII. Ainda hoje a madeira do pau-brasil é considerada a melhor para a fabricação de arcos de violino, entre outros usos nobres, embora, assim como a Mata Atlântica, de onde essa espécie é endêmica, esteja seriamente ameaçada de extinção.

Para os primeiros colonizadores e também para os diversos naturalistas europeus que a conheceram, principalmente nos séculos XVIII e XIX, a Mata Atlântica, ao mesmo tempo, provocava temor e fascínio. Por um lado, era um local essencialmente hostil , com seu aspecto sombrio e labiríntico, com onças traiçoeiras e serpentes venenosas, com batalhões incontroláveis de formigas e mosquitos, em um belo, mas implacável inferno, verde, úmido e quente.

Por outro lado a floresta virgem, exuberante, era a própria visão do paraíso. Palmeiras incontáveis, árvores com até 40 metros de altura recobertas por lianas, musgos, bromélias e orquídeas, belos e exóticos animais como tucanos, tamanduás, papagaios e araras multicoloridas, mutuns e inúmeros beija-flores, borboletas azuis, antas , preguiças, porcos-do-mato e uma grande diversidade de macacos e sagüis. Também os indígenas, com sua cultura tão distinta, reforçavam esse sentimento dúbio entre o prazer e o medo. Nus “como Adão e Eva”, em harmonia com a natureza rica em caça e pesca, água pura e abundante, ervas e frutas saborosas, os indígenas eram para alguns o símbolo da pureza humana. Para outros, o mito se invertia, representando povos arredios, perigosos canibais, almas ignorantes e pagãs a converter ao cristianismo e à civilização.

Para o colonizador, ainda que sensível à beleza da matam a substituição da floresta por cultivos, pastagens e cidades era entendida com a base do “progresso civilizatório” que se buscava.

Tendo a colonização se concentrado até meados do século XX na faixa costeira, e Mata Atlântica foi de todos os ecossistemas brasileiros o mais destruído. Como em nenhuma outra área, ali desenvolveram-se os ciclos econômicos da cana-de-açúcar, do algodão e do café, seguidos já nos séculos XIX e XX por intensos processos de urbanização e expansão agrícola.

Levantamentos realizados entre 1985 e 2000 indicam porém, que embora num ritmo menor que décadas atrás, mas ao mesmo tempo com maior gravidade devido ao estágio avançado de degradação do Bioma como um todo, a Mata Atlântica brasileira continua sendo destruída.

Depois de 500 anos de utilização contínua restam dela menos de 4% de sua área original de matas primitivas e outros 4% em floresta secundárias. Apesar de toda essa devastação a Mata ainda abriga um dos mais importantes conjuntos de plantas e animais de todo o planeta.

Clayton F. LinoAs florestas tropicais por suas condições de umidade e calor são os ecossistemas terrestres que dispõem da maior diversidade de seres vivos. Entre elas a Mata Atlântica, segundo estudos levados a efeito nas últimas décadas é a floresta que apresenta a maior quantidade de diferentes espécies arbóreas. Foram localizadas mais de 450 diferentes espécies de árvores em apenas um hectare de mata no sul da Bahia e 476 espécies em um hectare nas serras do Estado do Espírito Santo. Numa comparação simplificada existem mais plantas e animais diferentes em um hectare de Mata Atlântica do que em toda a Alemanha.

Essa condição é resultado, entre outras razões, da distribuição Norte-Sul dessa floresta e pela existência de consideráveis diferenças geológicas e de altitude nas serranias costeiras cobertas por ela. Igualmente importante foram as grandes transformações que a região sofreu em função das intensas mudanças climáticas porque passou em distintos períodos geológicos. Com isso há maior variação de climas, temperaturas, insolação e solos o que aumenta a possibilidade de evolução e diversificação de espécies.

Associados à Mata Atlântica existem também uma série de ecossistemas como os manguezais, as florestas de restinga, o jundu da beira das praias e campos de altitude que mantém com ela uma grande relação de afinidade e complementaridade e que estão igualmente sob forte pressão de ocupação.

Essa diversidade, ao mesmo tempo em que representa uma excepcional riqueza de patrimônio genético e paisagístico, torna mata extremamente frágil. A destruição de parcelas ainda que pequenas dessa floresta, pode significar a perda irreversível de inúmeras espécies, por vezes estudadas pela ciência.

Reduzida a 0,3% de sua área original na região nordeste do país, excetuando-se o sul da Bahia onde possui maiores fragmentos, ainda hoje fortemente ameaçados, a Mata Atlântica sobreviveu principalmente nos estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina, formando um grande corredor ecológico, graças ao relevo acidentado e à pobreza dos solos das Serras do Mar e da Mantiqueira, uma série de montanhas costeiras com até 2.500 metros de altura, que caracterizam o litoral sul e sudeste do Brasil. Notavelmente 20% de todos os remanescentes florestais se encontram no Vale do Rio Ribeira de Iguape, na fronteira dos estados de São Paulo e Paraná e apenas 200 km de São Paulo, a maior metrópole da América do Sul, com mais de 15 milhões de habitantes.

Resumidamente tem-se na região litorânea, no Nordeste, pequenas ilhas remanescentes de mata isoladas e ao sul e Sudeste manchas mais expressivas cujo principal corredor chega a mais de 2.000 km de extensão.As áreas mais para o interior, situada no planalto brasileiro, estão tão devastadas quanto a região nordestina, restando aí poucos exemplares da mata primitiva.

Por tudo isto a Mata Atlântica é hoje considerada como uma das florestas tropicais mais ameaçadas de extinção e um dos “hotspots” da biodiversidade mundial e prioritária para sua conservação em nível global. Apesar de grande ameaça ela ainda apresenta áreas de enorme importância biológica que merecem ser protegidas e em muitos casos ampliadas.

Clayton F. LinoA enorme variabilidade territorial e topográfica e em conseqüência climática, da Mata Atlântica, explica porque ela é uma floresta com grandes diferenciações biológicas. Assim as formações situadas mais ao Norte têm, segundo alguns especialistas, mais de 50% de suas espécies arbóreas diferenciadas daquelas situadas ao Sul.Aí a floresta já toma características de mata subtropical com o aparecimento de largas extensões onde predomina a Araucária angustifólia.

Como grandes blocos florísticos da Mata Atlântica podemos mencionar as formações ombrófilas densas do litoral, as florestas estacionais mais para o interior, bem como as diversas adaptações de transição para vegetações de clima mais seco do Brasil central e as matas ombrófilas mistas com araucárias da região Sul.Além disso, convivem com ela diversos ecossistemas associados como por exemplo especializações florestais litorâneas, manguezais, campos de altitude e muitas outras menos representativas em termos espaciais.

Nesse importante conjunto florestal se concentram 185 das 265 espécies de animais ameaçados de extinção.no Brasil, ou seja, cerca de 70% do total deles.

Das 17 espécies de primatas da floresta atlântica 9 lhe são endêmicas e 10 estão seriamente ameaçadas.Na Mata Atlântica são conhecidas 130 espécies de mamíferos, 51 delas endêmicas, 23 espécies de marsupiais; 57 espécies de roedores; 160 espécies de aves endêmicas; 183 espécies de anfíbios, 92% delas endêmicas; 143 espécies de répteis.

O patrimônio representado pela Mata Atlântica vai todavia além da riqueza da biodiversidade, da proteção dos solos e de mananciais de água potável, ou da exuberância paisagística. Sua importância é igualmente básica para a cultura nacional.Nas aquarelas dos antigos naturalistas, na imagem-símbolo do Rio de Janeiro, nas belezas do nosso litoral, a própria imagem e identidade brasileira estão impregnadas de Mata Atlântica.

Clayton F. LinoNas artes, na mitologia popular, na arquitetura e em todos os campos da cultura brasileira e Mata Atlântica deixou e deixa sua influência e, mais que qualquer ecossistema no país, essa floresta guarda os marcos de nossa história. Inúmeros sítios arqueológicos indicam a presença humana nessa região há milhares de anos. A esses povos extintos, seguiram outros ainda que em grande parte ameaçados e marginalizados pelas injustiças de nossa sociedade. Atualmente mais e 70 áreas indígenas subsistem na área da Mata Atlântica e sua influência persiste forte na cultura nacional, mesclada coma contribuição africana que veio com os escravos, a européia dos colonizadores e imigrados e, mais recentemente a dos imigrantes asiáticos.

É exatamente nas comunidades tradicionais indígenas, camponesas e de pescadores que talvez persiste alguns de nossos maiores patrimônios: a diversidade étnica e cultural, o conhecimento ancestral sobre a ecologia da floresta e a experiência concreta de alternativas de maneja-las de forma sustentável.

E tem ainda o Mar. A Mata Atlântica é fruto direto da umidade trazida pelo Atlântico e mistura-se a ele em ricos estuários cobertos por extensos manguezais, recifes de corais, ilhas costeiras e oceânicas. Mamíferos e aves migratória aumentam essa permanente interdependência, assim como os caiçaras, jangadeiros e outros povos litorâneos que plantam em terra e pescam no mar.


Clayton F. Lino/ Novembro 2003

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